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Pobreza pode deixar marcas biológicas permanentes em crianças

A conclusão é de uma pesquisa apresentada no último fim de semana em San Diego, nos Estados Unidos.

Cientistas americanos definiram uma espécie de “biologia da pobreza” entre adultos que passaram a infância em um ambiente pobre. Principalmente entre aqueles que viveram na miséria antes dos cinco anos de idade, diz o estudo publicado neste domingo (21), na reunião anual da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência).

Para o pesquisador Greg Duncan, da Universidade da Califórnia, a pobreza “pode modificar profundamente a neurobiologia da criança pequena em desenvolvimento” e afetar diretamente toda a sua vida.

O estudo explica que a primeira infância é “um momento fundamental para formar um cérebro que dê forma ao futuro cognitivo [relativo à capacidade adquirir conhecimento], social e do bem-estar emocional da criança”.

Thomas Boyce, da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, conta que testes biológicos comprovam a desvantagem das crianças pobres.

– As crianças que crescem em um ambiente desfavorável mostram níveis desproporcionais de reação ao estresse, e isso é notado nos exames hormonais, neurológicos e de perfis epigenéticos [durante o crescimento do embrião, situação na qual o fenótipo se modifica, sem influência do genótipo e sem alteração deste].

Para medir os efeitos socioeconômicos destes marcadores neurobiológicos da pobreza, os pesquisadores analisaram dados demográficos de 1.589 adultos nascidos entre 1968 e 1975, incluindo o nível de renda de suas famílias e os anos de educação alcançados, além de dados sobre sua saúde e antecedentes penais.

Segundo o estudo, foram percebidas “diferenças notáveis” entre as vidas adultas daquelas crianças, de acordo com o nível socioeconômico antes dos seis anos.

Em comparação com crianças de famílias que registravam renda pelo menos duas vezes mais alta que a linha de pobreza durante sua primeira infância, as crianças pobres tiveram dois anos a menos de escolaridade em média, trabalham 451 horas a menos por ano e ganham menos da metade.

Estas crianças também receberam de adultos mais de 800 dólares a mais por ano em cupons de alimentos e foram duas vezes mais propensas a ter uma saúde em geral deficiente ou altos níveis de estresse psicológico. As crianças pobres também acabaram mais gordas que as ricas e com uma maior tendência a apresentar sobrepeso na vida adulta.

Além disso, homens pobres desde a infância têm o dobro de chances de serem presos, e as mulheres, seis vezes mais chances de se tornarem mães solteiras.

A pesquisa – a primeira com estas características realizada nos Estados Unidos – também demonstrou que se uma família pobre recebe US$ 3.000 (R$ 5.433) por ano a mais por meio da assistência social do governo porque tem um filho de menos de cinco anos, quando adulta esta criança ganhará 17% a mais e trabalhará 135 horas a mais por ano.

Segundo os autores da pesquisa, este estudo prova que as políticas de bem-estar social dirigidas a famílias americanas pobres com crianças pequenas produzem resultados palpáveis. O estudo revela que quatro milhões de crianças nos Estados Unidos viviam na pobreza em 2007.

Para Jack Shonkoff, da Universidade de Harvard, a pesquisa oferece uma oportunidade para aprender mais sobre a biologia da pobreza, que pode ajudar a “desenvolver novas ideias e aliviar o impacto da precariedade no emprego e proteger melhor as crianças pequenas”.

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