Pessoas com amnésia ficam fora do passado e do futuro

Nos filmes, a amnésia é bizarra – e emocionante. A estrela é quase sempre um ex-assassino ou agente do governo cujo futuro depende da lembrança dos sangrentos fragmentos de quebra-cabeças que restauram sua identidade e explicam o passado.

Mas na vida real, pessoas com amnésia vivem em um universo mental tão estranho quanto a ficção: de acordo com uma nova pesquisa, estas pessoas vivem abandonadas no presente, tão impotentes ao imaginar experiências futuras quanto lembrar das antigas.

O novo estudo, reportado na semana passada nos Procedimentos da Academia Nacional de Ciências, é o primeiro teste rigoroso sobre como pessoas com amnésia habitam mentalmente cenários imaginários. Os resultados sugerem que para o cérebro, experiências antigas e imaginadas são reflexos do mesmo espelho, ricos universos internos animados por redes neurológicas quase idênticas.

As descobertas fornecem um olhar no que pode significar realmente viver no presente. Além disso, alimentam um contínuo debate sobre a memória. Alguns pesquisadores afirmam que a região central do cérebro responsável pela formação de memórias – o hipocampo, um pedaço de tecido no fundo do cérebro aonde memórias cotidianas são registradas – não serve necessariamente para resgatar tais experiências uma vez consolidadas em outro local do cérebro.

Outros, incluindo os autores do novo estudo, afirmam que o hipocampo de fato fornece o estágio no qual dramas mentais internos são preparados. Sem esta ajuda, restam somente os apoios – fatos soltos, nomes de pessoas, pedaços de músicas preferidas: os atores sem a peça.

"O estudo sugere que estes pacientes possuem fragmentos, os tijolos e o cimento, para criar novos cenários, mas suas descrições pecam pela coerência, já que não possuem o andaime fornecido pelo hipocampo", disse Morris Moscovitch, neurocientista da Universidade de Toronto. "A outra interpretação é de que estas pessoas não possuem tijolos e cimento suficientes para construir tudo".

Os pesquisadores, liderados por Eleanor Maguire e Demis Hassabis do University College London, instruíram cinco homens com serveros danos no hipocampo para imaginarem cenas familiares, como um museu, um pub ou uma praia. Pessoas com este tipo de dano, normalmente por falta de oxigênio durante um ataque cardíaco, podem parecer tão mentalmente aptos quanto qualquer outra pessoa – até ficar claro de que esqueceram comentários feitos apenas momentos antes.

Os homens, quando pedidos para preencher as cenas com detalhes imaginários, descreveram o que puderam. Os pesquisadores analisaram transcrições de suas respostas, pontuando cuidadosamente cada um de acordo com toques pessoais: emoções projetadas, sensações e ações. Descobriram que, comparados à descrições similares produzidas por adultos sem danos cerebrais, os cenários imaginados pelos cinco homens eram simples, estéreis de dimensão pessoal.

"Acreditamos que o hipocampo forneça um andaime para experiências e imaginações, e este andaime é espacial", disse Maguire. O registro cerebral de espaço físico, disse, parece ser necessário para infundir uma cena com ricas dimensões pessoais.

Outros pesquisadores afirmaram que o entorpecimento da imaginação poderia refletir uma dinâmica mais fundamental. O cérebro consegue resgatar naturalmente experiências anteriores para informar cenários imaginados, disse Peter J. Bayley, neurocientista da Universidade da Califórnia, San Diego. Sendo assim, as únicas memórias acessíveis aos homens seriam cenas da infância, consolidadas durante anos fora do hipocampo, e não forneceriam detalhes ricos para formar, por exemplo, um pub imaginário.

"As diferenças entre os dois grupos podem refletir a dificuldade que os pacientes possuem em restaurar informações do passado recente", disse Bayley. Ele e outros pesquisadores reportaram previamente sobre pacientes com danos no hipocampo que conseguiam lembrar fatos da infância com detalhamentos similares a qualquer outra pessoa.

As distinções que o cérebro faz entre fatos soltos e a ambientação mais rica e complexa de uma experiência são importantes para o entendimento da memória, já que pessoas com funções cerebrais saudáveis tendem a relembrar a essência da experiência, enquanto aqueles com danos no hipocampo muitas vezes recordam fatos discretos com mais exatidão. A diferença é parcialmente refletida nas palavras dos participantes do estudo.

Quando pedido para visualizar um mercado a céu aberto, um dos homens disse: "Eu vejo pessoas, muitas pessoas. A maioria, hm, não há muitos homens, tudo que vejo são mulheres jovens. E estão todas com pressa".

Um participante com atividades cerebrais normais respondeu: "Certo, então, existem barracas dos dois lados, e é bastante barulhento. A pessoa na minha direita vende frutas e verduras, e gritam para avisar que as bananas estão em oferta nesta semana".

Em um ensaio publicado neste mês na revista científica Nature, dois pesquisadores de Harvard, Daniel L. Schacter e Donna Rose Addis, sustentam que esta habilidade de imaginar cenas com riqueza de detalhes, sendo inteiramente dependente ou não do hipocampo, seja talvez a fronteira mais promissora das pesquisas de memória.

"Por quase 100 anos, a memória vem sido o objeto de estudos experimentais concentrados quase exclusivamente em seu papel na preservação e recuperação do passado", escreveram. "Acreditamos que seja o tempo de tentarmos entender alguns dos erros da memória ao observarmos o futuro".

Deixe um comentário