Parkinson, Esquizofrenia e Dopamina…

O estudo demonstra que escassez e excesso de um neurotransmissor, a dopamina, alteram profundamente o ciclo do sono de camundongos e produzem quadros neurológicos semelhantes aos apresentados por pessoas que sofrem das duas doenças.

Realizada na Universidade Duke, nos EUA, no laboratório do brasileiro Miguel Nicolelis, a pesquisa foi encabeçada pelo ganês Kafui Dzirasa e contou com a participação do próprio Nicolelis e de outros sete cientistas, entre os quais os também brasileiros Sidarta Ribeiro e Lucas Santos.

O estudo foi feito com camundongos transgênicos em que é possível regular a produção e a concentração da dopamina. A falta do neurotransmissor interrompia o ciclo do sono dos animais e os deixava aparentemente despertos, em estado de tensão muscular paralisante. O cérebro trabalhava como se estivesse entre a vigília e o sono de ondas lentas, fase do repouso em que não ocorrem sonhos. Sintomas e padrão de funcionamento cerebral semelhantes aos apresentados por quem sofre do mal de Parkinson.

Já a abundância de dopamina induzia um estado de excitação em que a atividade dos neurônios passava a ser como um meio termo entre o estado de vigília e a fase REM (sigla em inglês para \’movimento rápido dos olhos\’), período do sono em que o cérebro entra em intensa atividade e ocorrem os sonhos. É como se os dois estados se sobrepusessem.

Nesse caso, os camundongos adotavam comportamentos análogos aos psicóticos – como ficar hiperagitados e correr sem parar quando expostos a alguma novidade, como um ambiente desconhecido.

Neurocientista de prestígio internacional, Nicolelis adquiriu notoriedade no Brasil ao propor e liderar o projeto do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), que está sendo construído no Rio Grande do Norte.

"Derrubamos um dogma da neurociência ao mostrar que a dopamina desempenha um papel fundamental para o ciclo sono-vigília", declara Sidarta Ribeiro, que trabalha com Nicolelis há seis anos e hoje é o coordenador de pesquisas do IINN.

Até agora, predominava a idéia de que, entre os principais neurotransmissores, a dopamina seria o menos relacionado ao sono uma vez que, ao contrário dos demais, sua quantidade no cérebro permanece praticamente inalterada quando se adormece.

Outra novidade que o artigo anuncia é a possibilidade de ver distúrbios tão distintos quanto Parkinson e esquizofrenia como dois extremos de um mesmo fenômeno, determinado pela quantidade de dopamina no cérebro.

Isso não significa, frisa Ribeiro, reduzir toda a complexidade de uma psicose a dosagens de um neurotransmissor. "Abriu-se um novo caminho para a compreensão de distúrbios neurológicos e mentais, que poderá inclusive dar origem a novos tratamentos, mas sabemos que doenças como a esquizofrenia estão relacionadas a múltiplos outros fatores."

Sonhando Acordado

Um dos responsáveis pelo recente retorno de Sigmund Freud ao contexto das neurociências, Ribeiro celebra mais uma evidência de que as idéias do criador da psicanálise ajudam a vislumbrar processos cerebrais com muito mais nitidez do que a maioria dos biólogos e médicos imagina: "Freud associava as psicoses aos sonhos. Mas desde os anos 50, repete-se que ele teria cometido um equívoco fundamental quanto à natureza das psicoses. Agora vemos que, na verdade, dopamina, sono, sonho e psicose estão intimamente relacionados. Isso permite interpretar as alucinações da esquizofrenia como sonhos deflagrados durante a vigília."

Marco Antonio Prado, do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia Molecular da Universidade Federal de Minas Gerais, diz que o estudo do grupo de Nicolelis pode ser o primeiro passo para novos meios de diagnóstico capazes de identificar o mal de Parkinson muito antes da fase em que surgem os problemas motores. "Isso poderá propiciar pelo menos que se retardem e amenizem os sintomas."

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