Oliver Sacks e os estranhos casos de alucinações musicais

Desde 2008 que Mary Ann vê notações musicais no tecto, por cima da cama. As visões acontecem ao acordar. São notas musicais e pautas que lhe aparecem desenhadas também nos seus pés ou no espelho do armário.

"Algumas vezes vão de uma ponta à outra da parede", descreve. Depois o Sol sobe, a luz entra no quarto e os símbolos desaparecem da sua visão. Mary Ann é um dos oito casos de pessoas com alucinações musicais descritos pelo reputado neurologista, psiquiatra e escritor britânico Oliver Sacks num artigo agora publicado na revista "Brain".

A história de vida da maioria destas pessoas está intimamente ligada à música. "Estou na casa dos 70 anos e toco piano deste os sete. Toda a vida estive absorvida pela música", conta Mary Ann, segundo o artigo de Sacks. A alucinação desta paciente acontece quando ela passa do estado de sono para o de vigília. Muitos outros casos estão associados a problemas de saúde como o glaucoma ou a doença de Parkinson, que podem surgir numa idade avançada. Mas o processo neurológico subjacente é intrigante.

As pautas e o texto escrito

"Talvez isto seja uma coincidência, mas obriga-nos a questionar se há alguma coisa nas pautas de música que seja radicalmente diferente do texto escrito", diz no artigo Oliver Sacks, da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Iorque.

Este tipo de alucinação faz parte do grupo de alucinações textuais, onde os pacientes vêem letras, texto dactilografado, números, símbolos matemáticos e, claro está, a notação musical. Estes testemunhos vieram ter directamente às mãos de Sacks descritos pelos próprios pacientes.

O especialista tem estudado fenómenos neurológicos relacionados com a música. Em 2007, publicou o livro "Musicofilia: Histórias da Música e do Cérebro", onde conta casos ímpares como o de um médico que é atingido por um raio e depois é reanimado e torna-se obcecado pela música, ou o de um músico britânico que sofreu de uma encefalite rara, passou a ser incapaz de guardar memórias, mas continuou a conseguir tocar piano e a dirigir uma orquestra. Entre os livros famosos do neurologista conta-se ainda "O Homem que Confundiu a Mulher com Um Chapéu" ou "O Tio Tungsténio". O seu último livro, "Hallucinations", é de 2012.

No novo artigo, a música chega de forma inesperada. "Sou uma mulher de 77 anos com danos visuais causados por um glaucoma que atinge a metade de baixo da minha área de visão. Há cerca de dois meses comecei a ver música, linhas, espaços, notas, claves — via música escrita em tudo para onde olhava na parte da visão atingida pela cegueira", escreveu Marjorie J. a Oliver Sacks, em 1995.

Marjorie J. tocava piano, tal como outros seis pacientes. O artigo descreve os casos de seis mulheres e dois homens. O oitavo caso é o de Christy C., uma mulher que só teve um contacto mais profundo com a música em criança, quando teve algumas lições de piano. Tem alucinações musicais desde criança, sempre que tem febres altas. "Via notas e linhas de claves todas juntas e desordenadas. As notas estavam zangadas e eu sentia-me desconfortável", escreve.

Uma das características comuns entre os pacientes é a impossibilidade de traduzirem em música real as alucinações musicais. No caso de Arthur S., um cirurgião e pianista amador que começou a perder a visão devido a uma degeneração macular, quando começou a ver as pautas, pensou que o seu cérebro estava a produzir música original. Mas, ao tentar ler a música que via sempre que olhava para qualquer fundo branco, percebeu que estava diante de algo ilegível: as notações tinham várias pautas e acordes complexos e impossíveis de se lerem. "É uma mistura de notação musical com nenhum significado", resume Arthur S.

Há autores que defendem que as alucinações com texto estão relacionadas com uma actividade anormal da área do cérebro associada à visão. No entanto, para Oliver Sacks, os casos que descreve são neurologicamente diferentes das alucinações em que as pessoas vêem textos escritos.

O investigador explica que ler a notação musical é mais complexo: na pauta, é necessário fazer uma leitura vertical para identificar a altura da nota, assim como uma leitura horizontal para ler as frases musicais. Além disso, cada nota tem um valor temporal, conforme for uma semibreve, mínima, semínima ou colcheia. Já nos textos, as 26 letras, que juntando-se dão as palavras, são lidas horizontalmente. Por outro lado, os leitores da pauta estão mais preocupados em produzir música, enquanto os leitores de texto querem compreender e lembrar-se do que leram.

Tanto a leitura de música como a de texto estão associados ao processo de visão. O sistema visual avalia no cérebro o formato dos signos que os olhos vêem e envia a informação para regiões cerebrais superiores, onde ela ganha coerência e significado. Oliver Sacks explica que, enquanto se conhece bem a área cerebral associada à leitura do alfabeto, não se sabe tão bem qual a região responsável pela leitura de música. Uma outra paciente de Sacks perdeu a capacidade de ler música três anos antes de começar a ter dificuldades em ler textos – o que, para o neurologista, mostra que "são necessárias outras partes do cérebro para a leitura de música que não só aquelas envolvidas na leitura de texto", escreve no artigo.

Casos semelhantes aos dos oito pacientes contados aqui são, por isso, uma oportunidade para compreender estas diferenças, conclui Sacks: "Poderá ser necessário estudar distúrbios da visão para perceber como é que os processos cognitivos e de percepção são analisados e delegados em diferentes níveis [do cérebro]. As alucinações com notações musicais poderão ser um campo de estudo muito rico."

Ciencia Portugal

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