O Mistério da Consciência

O que faz com que o cérebro de cada ser humano seja especial e corresponda a uma consciência individual única? Em outras palavras: como o cérebro se torna uma mente? Segundo a neurocientista inglesa Susan Greenfield, essas questões ainda são um desafio, mas já se sabe que a resposta está nas conexões entre as células cerebrais.

A pesquisadora, que tem o título de baronesa e é diretora do Royal Institution, um centro científico britânico de 207 anos, em São Paulo, a conferência “Como funciona o cérebro”, na Estação Ciência da Universidade de São Paulo.

Lady Susan, 55 anos, é professora de farmacologia na Universidade de Oxford e proprietária de três empresas de pesquisa em biotecnologia: Synaptica, BrainBoost e Neurodiagnostics.

Segundo a cientista, existem áreas do córtex cerebral relacionadas a determinadas funções, como tato, fala ou visão, mas a correspondência entre funções e regiões cerebrais não é exclusiva. “Cada região trabalha como um instrumento de uma orquestra, que atua na hora certa para combinar-se com várias outras e realizar uma função”, disse.

A função da fala, por exemplo, ativa simultaneamente diferentes regiões do córtex, variando também de acordo com a especificidade de cada ação relacionada a ela, como escutar, falar ou pensar as palavras. “O resultado total é maior do que a soma das partes. Por isso, não podemos isolar as atividades cerebrais”, disse Lady Susan.

Segundo ela, não se pode esperar que a ciência chegará um dia a influenciar características como habilidade para música ou tendências criminosas a partir da intervenção no cérebro. “O cérebro é uma primorosa combinação individual, sensível ao ambiente externo. Podemos estimular partes dele, mas não enfocar funções, que são produtos da totalidade. Ao alterar um componente, mexemos em todos os outros.”

Igualmente, não se pode esperar que haja ligação direta entre características genéticas e funções mentais – embora existam enfermidades, como a doença de Huntington, que são relacionadas a um único gene. “Mesmo nesse caso, não é tão simples”, afirmou.

A pesquisadora citou um experimento feito com ratos que possuíam o gene dessa doença degenerativa. Uma parte foi confinada em ambiente apenas com água e comida. Outra ficou num ambiente enriquecido com atividades que estimulavam a ação, como rodas-gigantes e labirintos. Os ratos no ambiente enriquecido desenvolveram a doença mais tarde e em velocidade muito mais lenta. “Isso mostra como o ambiente é determinante”, disse.

Outro fato considerável, segundo ela, é que o corpo humano tem cerca de 30 mil genes, enquanto o cérebro tem cerca de 10 milhões de conexões. “Certamente, o gene não pode ser o centro da pessoa que você é”, disse.

Consciência: uma assembléia neural

A cientista destacou que o ser humano nasce com todas as células cerebrais, mas suas conexões aumentam incrivelmente nos dois primeiros anos de vida. “Quanto maior o número de conexões, maior o repertório mental e maior a individualidade daquela pessoa. É ali que a consciência acontece.”

Cada pensamento muda as conexões cerebrais e a experiência pode aumentá-las. “Doenças como o mal de Alzheimer e a demência desmontam essas conexões e a pessoa volta a ser como criança, perdendo individualidade. Quanto mais o doente exercita a mente, mais devagar ocorre o desmonte. As drogas também agem impedindo as conexões e causando esse efeito de perda da individualidade”, arfirmou.

Lady Susan ressaltou que o cérebro humano tem apenas 25% de sua área cortical ocupada com o processamento dos sentidos, estímulos e respostas motoras – o resto é ocupado pela área do córtex pré-frontal. “Sabemos que essa área está relacionada de alguma forma ao caráter e à individualidade, mas não está claro exatamente como ela atua”, disse.

Segundo a cientista inglesa, o córtex pré-frontal, onde fica a maior parte dos neurônios, forma áreas de associação responsáveis pela integração de informações correntes com outras preexistentes, emocionais e cognitivas. “Os neurônios nas áreas de associação se agrupam em minicolunas, dispostas verticalmente em relação à espessura cortical.”

Cada uma dessas minicolunas faz conexões com suas vizinhas, em colunas que formam as unidades básicas de integração das informações. A partir delas, com a chegada de estímulos externos ou internos, os neurônios são recrutados em uma espécie de “assembléia”.

“Esta atuação em uníssono é que gera o pensamento consciente. Como estas assembléias podem se formar em qualquer uma das áreas associativas, a consciência é múltipla no espaço, embora única no tempo”, disse Lady Susan.

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