O Cérebro Nosso de Cada Dia – Descobertas recentes da neurociência – Previsão do futuro: o que atletas de elite têm que você não tem

Ao ver um jogador de basquete fazendo um lance livre, você conseguiria dizer, só pelos seus movimentos iniciais, se ele vai acertar a cesta? Provavelmente não. Treinadores e jornalistas esportivos até conseguem prever o resultado de alguns lances. Mas, segundo um estudo publicado na revista Nature Neuroscience em 2008, jogadores profissionais preveem com bastante acurácia o resultado desses lances.

No estudo, jogadores profissionais, treinadores ou jornalistas esportivos e iniciantes assistiram a clipes de lances livres, editados previamente para que só mostrassem o lance até um certo ponto do movimento. A tarefa dos participantes era decidir o destino da bola: ela “entra”, “não entra”, ou o participante não conseguia decidir.

Uma pessoa que tentasse adivinhar sem nenhuma base o destino da bola deveria acertar se ela entra ou não na cesta 50% das vezes, em média. Os jogadores de elite acertaram suas predições em 67% das vezes, mas treinadores e jornalistas esportivos e o grupo dos iniciantes somente acertaram 44% e 40% dos lances, respectivamente. Se treinadores passam tanto tempo quanto os jogadores que eles treinam acompanhando bolas voando em direção à cesta, por que somente os jogadores conseguem antecipar o resultado dos lances?

A diferença está na capacidade dos jogadores de elite de prever rapidamente o destino da bola – o que é de se esperar pela exigência de decisões rápidas neste jogo frenético. Ao assistir a clipes mais curtos em que a bola não chegava a sair das mãos do jogador, os iniciantes nem arriscavam um palpite sobre se a bola entraria ou não, enquanto jogadores, treinadores e jornalistas esportivos já tinham uma opinião formada. Mas somente os jogadores de elite é que acertavam suas predições: provavelmente, somente eles conseguem “ler” fluentemente os padrões de movimento corporal de outros jogadores, como por exemplo a cinética das pernas na hora do impulso e a flexão dos dedos das mãos- mais especificamente o dedo mindinho, segundo os pesquisadores – na hora em que a bola deixava o jogador.

Enquanto observavam os lances, as fibras nervosas que ligam o córtex motor aos músculos ficavam mais ativas nos jogadores e nos expectadores experientes do que nos iniciantes. Mas tal ativação só ocorria ao assistir a cenas do esporte em que eram especialistas (no caso, basquete); vídeos de chutes a gol não provocavam efeitos. Ao observar uma ação na qual são especialistas, portanto, o córtex cerebral aparentemente é capaz de simular essa ação – o que talvez ajude a permitir aos jogadores acertar mais frequentemente o desfecho do movimento observado (muito importante quando a vitória do seu time está em jogo!).

Curiosamente, somente os jogadores profissionais mostravam ainda uma ativação muscular mais acentuada ao ver a bola deixar as mãos do jogador e prever (acertadamente) que ela não entraria na cesta. Somente os jogadores profissionais é que sentem na pele, ou melhor, na mão, quando uma bola em lançamento terá um destino fracassado! (PfMRI, 01/5/2010)

 

Fonte: Aglioti SM, Cesari P, Romani M & Urgesi C (2008) Action anticipation and motor resonance in elite basketball players. Nature Neuroscience 11(9): 1109 – 1116.

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