Neurociência: o futuro da medicina

“Acho que a gente está num crescimento bastante acelerado e a gente vai ter cada vez mais novidades”, comenta a neurocientista Eliane Volchan, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“É uma área que envolve pessoas vindas de formações bastante distintas. Então tem médicos, biólogos, físicos, psiquiatras, e cada um tem o seu papel dentro disso”, diz o físico Luiz Guilherme Lutterbach, também da UFRJ.

É o conhecimento de ponta em todas essas áreas que encara o desafio de  decifrar o cérebro. Ferramenta principal: a conhecida ressonância magnética, chamada nesse caso de ressonância magnética funcional.

Funciona assim: para mexer a mão, por exemplo, uma certa região do cérebro começa a trabalhar mais. E para isso, precisa de mais energia, mais oxigênio passando ali. É exatamente essa diferença de oxigênio numa certa área cerebral que é captada pela ressonância magnética funcional.

Os neurocientistas querem identificar as áreas do cérebro responsáveis pelas mais variadas tarefas, sensações e emoções.

“Em uma reprodução do cérebro de uma pessoa que está olhando para fotografias, enquanto nós estamos fazendo o teste da ressonância magnética funcional, podemos ver que as fotografias tem um conteúdo bastante forte para essa pessoa. Esse conteúdo pode ser muito negativo ou muito agradável”, explica Eliane Volchan.

Os exames mostraram atividade acima do normal em uma área bem no meio do cérebro. É a chamada amídala. Não tem nada a ver com a amídala da garganta, é só o mesmo nome. Essa amídala cerebral é uma espécie de central de emergência.

“Essa região mostrou que ela fica extremamente ativa, sempre que a gente está numa situação emocionalmente relevante, principalmente quando a situação é aversiva, uma situação de ameaça”, ensina a neurocientista da UFRJ.

E o que dizer de assassinos, de bandidos, como os do filme de ficção “Laranja Mecânica”, que não estavam nem aí pras mais horríveis cenas de violência? No futuro, a ressonância magnética funcional pode detectar muito cedo que alguém vai crescer e ser desse jeito. Isso abre uma profunda discussão ética.

“Vamos supor que, no futuro, se detecte que a amídala tem um mau funcionamento nesses indivíduos que são assassinos em série. Não existe outra maneira de fazer com que o indivíduo vai ser um risco muito grande pra sociedade. É lícito fazer uma cirurgia, extirpar as amídalas do cérebro? Vamos especular. Acho que essa discussão é importante e é uma discussão que a sociedade tem que tomar”, comenta Eliane Volchan.

A técnica também tem aplicações mais práticas, diretas. Pode ser útil, por exemplo, para ajudar um médico a saber se um remédio está funcionando.

“Uma vez feito o diagnóstico de uma determinada doença, você conseguiria dizer qual a probabilidade desse indivíduo se desenvolver bem no caso do tratamento ser bem sucedido, ou não, dependendo de como nós interpretarmos as imagens. Em outras palavras, se você precisa mudar o tipo de tratamento ou mesmo mudar a dose da medicação, ou ainda mudar o tipo de fisioterapia que está sendo feita”, explica o radiologista Edson Amaro Júnior, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Desvendar o cérebro abre muitas portas pra melhorar a vida.

“A gente pode saber quais são as melhores formas da gente ter crianças desenvolvendo suas capacidades ao máximo. A gente vai poder também superar algumas lesões que hoje em dia são irreversíveis, como as da medula espinhal em que a pessoa fica paralítica”, ressalta Eliane Volchan.

Essa revolução passa pelo Brasil. O principal encontro do mundo de ressonância funcional vai ser realizado de 6 a 9 de maio de 2004, no Guarujá, litoral de São Paulo.

“Tem muita coisa nova acontecendo. É o início de uma ciência. É como se quem estudou física no século XIX fosse estudar neurociência no século XXI”, empolga-se Luiz Guilherme Lutterbach.

 

Deixe um comentário