Encefalite Herpética: Quando suspeitar ?

Introdução
A encefalite herpética é uma condição incluída no grupo das encefalites virais e compreende um processo inflamatório do parênquima encefálico com presença de disfunção neurológica devido a infecção viral. É ocasionada por agentes da família herpesviridae: Herpes simplex tipo 1 (HSV1); Herpes simplex tipo 2 (HSV-2); Vírus Varicela-Zoster (VZV); Citomegalovírus (CMV); Vírus Epstein – Barr (EBV); Herpesvírus humano tipo 6 (HHV-6) e Herpesvírus humano tipo 7 (HHV-7).

Epidemiologia
É a forma mais comum de encefalite viral esporádica e ocorre mais comumente em crianças, idosos e imunodeprimidos. A infecção pelo HSV1 corresponde a cerca de 75% dos casos, seguido pelo HSV-2, VZV, CMV e EBV. Possui altas taxas de morbimortalidade de acordo com: o agente viral, o diagnóstico tardio e o retardo do início do tratamento, podendo gerar sequelas neurológicas permanentes. A encefalite por HSV especificamente não possui caráter sazonal ou padrão geográfico característico, o que difere de outras infecções de etiologia viral, como nas arboviroses.

Quadro Clínico
O quadro clínico depende da região encefálica acometida e de sua susceptibilidade à infecção. De forma geral, as manifestações clínicas possuem início agudo (24-72h), com presença de sintomas sistêmicos, tais como: febre, adenopatia, mialgia, artralgia, rash cutâneo, sintomas respiratórios e gastrintestinais em associação com sinais e sintomas focais ou difusos de disfunção neurológica, incluindo alteração do nível de consciência, podendo variar de agitação até ao coma, alucinações, mudanças no comportamento e de personalidade, convulsões, afasia, ataxia, movimentos involuntários, hemiparesia, papiledema e até envolvimento hipotalâmico (ex: SIADH).

Diagnóstico
Critérios diagnósticos para encefalite de acordo com: Consensus Statement of The International Encephalitis Consortium 2013 Critério Maior (obrigatório): Pacientes que buscaram ajuda médica apresentando alteração do estado mental (definida como rebaixamento ou alteração do nível de consciência, letargia ou mudança de personalidade em um tempo ≥ 24h com nenhuma outra causa identificada)

Neuroimagem

Encefalite por VZV: Lesões podem ocorrer no cerebelo e no tronco encefálico; a presença de isquemia e hemorragia acometendo as regiões cortico-subcorticais sugere vasculopatia. Também pode haver acometimento dos lobos temporais.
Encefalite por HSV -1: RM de crânio sequência FLAIR: Acometimento assimétrico da porção mesial dos lobos temporais, lobos orbitofrontais e córtex insular com edema, podendo apresentar restrição à difusão da água e hemorragias em estados avançados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Testes Diagnósticos no LCR

Medidas Iniciais do Tratamento

Consiste no tratamento de suporte com controle da pressão arterial e temperatura, da pressão intracraniana, garantindo
uma via área pérvia com suplementação de oxigênio se necessário e controle de crises convulsivas se existentes.

  • Tratamento empírico: Na suspeita de encefalite herpética não descartada nas primeiras horas de internação, deve-se iniciar tratamento empírico com aciclovir por via IV na dose de 10 mg/kg de 8/8h o mais breve possível, evitando sequelas e possíveis complicações.
  • Tratamento específico:

➔ HSV: tratamento com aciclovir durante 14 a 21 dias. Reavaliação por PCR no LCR após esse período, e se ainda for positivo, realizar tratamento de manutenção e repetição da análise do líquor semanalmente até que o resultado seja negativo para interromper o uso do fármaco.
➔ VZV: tratamento igual ao do HSV. Se houver evidências de vasculopatia, recomenda-se o uso de corticóides.
➔ EBV: Não há fortes evidências na literatura para o uso de aciclovir e ganciclovir na encefalite por EBV.
➔ CMV: tratamento com ganciclovir por 4 semanas
➔ HHV-6/7: tratamento com ganciclovir e foscarnet isolados ou em combinação são indicados.

 

Vitor Pereira Machado

  • Monitor do Neurocurso.com
  • Acadêmico do 5 ano do curso de medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, campus Três Lagoas (UFMS – CPTL).
  • Exerceu o cargo de presidente da liga de neurologia e neurociências (LANN) no período 2019/2020
  • Membro discente da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).

 

Referências Bibliográficas

  • BRASIL NETO, J. P.; TAKAYANAGU, O. M. Tratado de neurologia da Academia Brasileira de Neurologia. 2. ed. Elsevier, 2013. Costa BK, Sato DK.
  • Viral encephalitis: a practical review on diagnostic approach and treatment. J Pediatr(Rio J). 2020;96(S1):12—9. TYLER, Kenneth L. Acute Viral Encephalitis. The New England Journal of Medicine, Aurora, US, v. 379, n. 6, p. 557-566, ago./2018.
  • VENKATESAN, A. et al. Acute encephalitis in immunocompetent adults. The Lancet, Liverpool, UK, v. 393, n. 1, p. 702-716, fev./2019.
  • VENKATESAN, A. et al. Case Definitions, Diagnostic Algorithms, and Priorities in Encephalitis: Consensus Statement of the International
    Encephalitis Consortium. Clinical Infectious Diseases, Baltimore, US, v. 57, n. 8, p. 1114-1128, jul./2013
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