Cefaleia por uso excessivo de medicamentos

O que é uma cefaleia por uso excessivo de medicamentos?

Consiste em um dos quadros mais comuns de cefaleia crônica diária, oriunda do uso indiscriminado de analgésicos. O uso excessivo de medicamentos é um importante fator de risco para aumento da frequência, intensidade e causa comum de relato de mudança de padrão de cefaleia prévia. Esta condição é diagnosticada quando o paciente apresenta cefaleia por pelo menos 15 dias ao mês e faz uso de analgésicos simples por pelo menos 15 dias ou múltiplos analgésicos por pelo menos 10 dias.

Epidemiologia:

Sua epidemiologia é mais frequente em mulheres do que em homens (pode ser pela maior prevalência de migrânea em mulheres). Há relatos de até 15% de prevalência em centros especializados em cefaleia. A prevalência de cefaleia por abuso de analgésico depende fortemente dos critérios diagnósticos utilizados.

Principais medicamentos relacionados:

  • Analgésicos comuns (ibuprofeno, acetaminofeno/paracetamol, ácido acetilsalisílico, metamizol e outros).
  • Ergotamínicos
  • Analgésicos combinados (contendo cafeína, barbitúricos e outras substâncias adicionadas a analgésicos simples).
  • Triptanos
  • Opióides

Atendimento no contexto da Urgência:

  • Qual duração do abuso de AINE, quais medicamentos são utilizados, com que frequência o paciente faz uso ?
  • Identificar motivos da falha terapêutica da cefaleia primária: Gatilhos como privação de sono, alimentação, ansiedade, abuso de tempo de tela, sedentarismo, etc.
  • Uma anamnese bem colhida direciona para um raciocínio clínico de exclusão. Há necessidade de neuroimagem? Depende da sua clínica. Essa cefaleia está associada a outras manifestações clínicas?
  • Orientar o paciente que a suspenção abrupta do AINE pode desencadear cefaleia rebote intensa e grave de duração de 2-10 dias. Por esse motivo deve-se sempre tratar a cefaleia por abuso simultaneamente.
  • Exame físico direcionado: lembrar dos sinais de alarme da cefaleia – SNOOP
  • A recidiva de abuso de AINE pode chegar a 30%-50%

Motivos relacionados ao abuso de AINE:

As razões apontadas pelos pacientes para o consumo de analgésicos num estudo efetuado por Ferrari e Sternieri foram:

  • Por conselho médico de tomar o analgésico no momento oportuno – 57%
  • Dificuldade em suportar a dor – 67%
  • Medo que a dor surja se não tomarem – 62%
  • Reaparecimento da dor depois do consumo – 30%
  • Acreditar que não há cura – 65%
  • Necessitar do analgésico para trabalhar melhor – 62%
  • Diminuir a ansiedade – 45%
  • Para ajudar no sono – 18%

Fisiopatologia: 

Estudos revelaram aumento da expressão de CGRP, hiperexcitabilidade cortical, sensibilização central a dor, hipomodulação do sistema endocananinoides e hipometabolismo de áreas de controle de dor ao FDG-PET (fluordoxiglicose).

Como tratar cefaleia por abuso de AINE?

O paciente deve passar por uma consulta médica abrangente para que os fatores de risco e gatilhos para cefaleia primaria (que leva ao uso excessivo de analgésicos) sejam identificados. Orientar quanto a possibilidade de síndrome de abstinência e de cefaleia rebote.

As evidência são ruins, mas os esquema mais utilizados são:

  • Prednisona 60mg/dia 1x ao dia por dia 5-7 dias
  • Amplictil (clorpromazina) IM 01 ampola 25mg/5ml + hiperidratação venosa no contexto da urgência
  • Amplictil 4% oral (cada gota 1mg): orientar paciente a titular dose (iniciar 3-5 gotas a noite)
  • Introdução de medicação profilática para controle da cefaleia primaria
  • Orientação ampla e contundente da importância de se evitar uso excessivo de medicamentos para cefaleia

Referências:

  1. Rasmussen BK. Epidemiology of headache. Cephalalgia. 1995;(15):45- 68.
  2. Speciali JG. Cefaleias. In: Lopes AC, editor. Tratado de clínica médica. 2ª ed. São Paulo: Roca; 2009. p. 2233-2248.
  3. Bigal ME, CA, Speciali JG. Epidemiology of headache in two primary care units. Headache. 2000;40(3):241-7.
  4. Friedman BW, Lipton RB. Headache emergencies: diagnosis and management. Neurol Clin 2012; 30: 43-59.
  5. Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The international classification of headache disorders, 3rd edition. Cephalalgia 2018, 38(1): 1-211.
  6. Queiroz LP, Silva Junior AA. The Prevalence and Impact of Headache in Brazil. Headache 2015; 55(S1): 32-38.
  7. Speciali JG. Entendendo a enxaqueca. Ribeirão Preto: Funpec; 2003.
  8. May A, Schulte LH. Chronic migraine: risk factors, mechanisms and treatment. Nature Reviews Neurology 2016; 12: 455-464.
  9. Swadron SP. Pitfalls in the management of headache in the emergency department. Emerg Med clin North Am 2010; 28: 127-147.

Felipe dos Santos Souza

  • Monitor do Neurocurso.com
  • Graduando em Medicina pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT)
  • Diretor de Extensão da Liga Acadêmica de Urgência e Emergência de Cáceres (LAUREMC) e presidente da Liga Acadêmica de Fisiologia e Farmacologia de Cáceres (LAFFC)
  • Participa de grupos de estudos em Emergência, Imunologia e Neurologia.

 

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