Música sob medida para tratar o tinnitus

Uma das ironias de começar a perder a audição é que muitas vezes a perda vem associada a um ganho indesejado: o tinnitus, aquele zzzzzzziiiiiiiiiiiimmmm permanente que pode ser forte o suficiente para afetar a qualidade de vida de 1 a 3% da população.

Pesquisas recentes indicam que a fonte do tinnitus está no cérebro, em uma reorganização problemática do córtex auditivo, provavelmente como resultado da perda auditiva na orelha interna. Essa perda inicialmente reduz a atividade na parte do córtex responsável por ouvir sons na faixa de frequências afetada, mas, com o tempo, essa região subutilizada do córtex auditivo seria invadida pelas vizinhas e, na falta do controle normal pelo equilíbrio entre os vários sons naturais, acabaria ficando ativa demais, gerando um som fantasma (equivalente ao membro fantasma que ocorre nos amputados). Esse som fantasma é o tinnitus, que é mais intenso quanto mais forte é a ativação anormal do córtex auditivo. E agora a notícia realmente ruim: até hoje não há tratamento.

Mas só até hoje. Foi pensando justamente na reorganização do córtex que a equipe de Christo Pantev, na Alemanha, decidiu virar o feitiço contra o feiticeiro. Se o tinnitus é causado por ativação excessiva de uma região do córtex, então deixá-la sem atividade, enquanto as demais funcionam, talvez produzisse uma nova reorganização no sentido desejado de reduzir o tinnitus.

O tratamento escolhido foi manipular as músicas preferidas de voluntários com tinnitus, eliminando das músicas todos os sons na oitava ao redor da frequência do som do tinnitus. O resultado soa próximo o suficiente do original para ainda ser considerado prazeroso, e ouvido com assiduidade como um verdadeiro tratamento. Como controle, a equipe testou em um outro grupo de pacientes músicas manipuladas para não terem outra oitava, que não incluia a frequência do tinnitus.

Resultado: com seis meses de 12 horas semanais de audição das músicas manipuladas, a intensidade do tinnitus já havia caído 20%, com efeitos na maioria dos pacientes, e em 12 meses, o tratamento havia surtido efeitos em todos, com redução média de 30% no volume do tinnitus, associada, como esperado, a uma redução da atividade anormal no córtex auditivo. O grupo controle, por outro lado, não teve melhoria alguma. O tratamento, portanto, não é simplesmente ouvir música, mas ouvir músicas que não têm sons na faixa de frequência do tinnitus.

A notícia é uma grande conquista para quem sofre de tinnitus: trata-se não só do primeiro tratamento comprovadamente eficaz contra o tinnitus, como também de uma terapia ao mesmo tempo barata, prazeirosa e sem contra-indicação. Só faltou eliminar completamente o tinnitus. Mas talvez isso seja apenas uma questão de tempo… (SHH, 08/03/2010)

 

Fonte: Okamoto H, Stracke H, Stoll W, Pantev C (2010) Listening to tailor-made notched music reduces tinnitus loudness and tinnitus-related auditory cortex activity. Proc Natl Acad Sci USA 107, 1207-1210.

NeuroCurso ® Todos os Direitos Reservados.