Médicos frios: você quer um desses

O cérebro humano é dotado da capacidade automática de empatia: quando é exposto ao sofrimento de outra pessoa, ou mesmo o imagina, ele se importa como se a dor alheia fosse sua. A empatia, portanto, é essa mimetização da reação do cérebro do outro. Assim, o sorriso do outro nos alegra e o seu sofrimento… dói.

Entretanto, a reação dos profissionais da área da saúde ao sofrimento alheio parece distinta da empatia que as demais pessoas experimentam. Será esse um embotamento emocional aprendido por prática e necessidade, para sobreviver à própria profissão? Será que, ao contrário, só se torna médico quem consegue não sofrer junto com o paciente? Será que os médicos de fato não empatizam com seus pacientes, ou apenas não o demonstram? 

O fenômeno da empatia à dor se dá em duas etapas: uma inicial, automática e relacionada à afetividade, e uma posterior, de avaliação cognitiva. Estudos de neuroimagem já haviam demonstrado que, ao ver alguém ser espetado por uma agulha, o cérebro de pessoas “comuns” (leia-se não médicas) tem rapidamente ativados circuitos, como o córtex cingulado dorsal e a ínsula anterior, envolvidos no processamento afetivo da dor – como se ela fosse sua. Daí a aflição e a compreensão da dor do outro. No cérebro dos médicos, ao contrário, essas regiões não são ativadas, mas outras são, envolvidas com atenção e função executivas e autocontrole – como se o médico fizesse força para ignorar o sofrimento alheio, e acabasse conseguindo. Mas uma outra interpretação seria possível: a própria falta de empatia poderia se tornar automática nos médicos.

Um estudo publicado na revista NeuroImage desvendou o mistério. Pesquisadores do grupo de Jean Decety acompanharam a dinâmica da atividade elétrica dos cérebros de médicos e não-médicos, registrada pelo EEG, enquanto esses assistiam a cenas de pessoas sendo espetadas por uma agulha ou tocadas por um cotonete. Descobriram que, tanto no momento inicial (apenas um décimo de segundo após o estímulo visual – relacionado ao componente afetivo) quanto em um posterior (também em menos de meio segundo – associado ao caráter cognitivo), o cérebro dos médicos se comporta da mesma forma ao assistir às situações dolorosas ou não, enquanto o dos outros reage de forma diferente a cada uma dessas situações.  

Esses resultados sugerem que a modulação negativa da empatia à dor que ocorre nos médicos se dá tanto em um nível automático quanto cognitivo. E comprovam que – sim! – os médicos são mais frios quanto à dor alheia, como vários pacientes já reclamam.

Mas é justamente essa “frieza”, essa tolerância, que permite que os médicos realizem seus trabalhos. Um ortopedista desesperado com uma fratura nunca conseguiria repará-la. Um pediatra que experimentasse a mesma sensação dos pais de uma criança que se machuca teria comprometida sua capacidade de ajudar, pois a empatia pode levar a um estado geral de alarme e ansiedade. Com a exposição sucessiva, seu próprio bem-estar ficaria prejudicado – e, com isso, sua habilidade médica. A “falta” de empatia do médico pode incomodar. Mas pense bem: em uma emergência, você preferiria ser atendido por um médico tranquilo que resolve o problema rapidamente ou por um médico que se desespera e chora junto com você? (ACMAC, 09/03/2010)

 

 

Fonte: Decety J, Yang C, Cheng Y (2010) Physicians down-regulate their pain empathy response: An event-related brain potential study

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