Lembranças traumáticas? Vamos apagar

– Imagine que, aos 3 anos, você foi atacado por um cachorro feroz. A lembrança do episódio traumático e sangrento fica impressa na mente a tal ponto de se tornar um obstáculo na vida adulta – produzindo fobias e prejudicando seu desenvolvimento pessoal e profissional. Agora imagine que uma substância química pode apagar essa memória, oferecer uma libertação da sentença imposta pelo trauma.

A substância existe. A notícia sobre a possibilidade de apagar memórias, estampada na primeira página do New York Times, transformou um sonolento laboratório do bairro do Brooklyn numa atração para repórteres de vários países. Mostrou também que nada como uma reportagem preparada com alento e plantada com destaque para termos a dimensão da importância da descoberta – apesar do triunfalismo dos blogueiros, que no fundo fariam fila para entrar numa redação. A nova estrela da neurociência atende pelo nome de PKMzeta, uma molécula que circula nos nossos neurônios. Não suporta solidão e prefere andar em bando. Há tempos os cientistas estudavam uma dúzia de moléculas associadas à memória.

Mas o neurologista Todd Sacktor vivia cismado com um conselho que recebera do pai, um bioquímico. A história da ciência está cheia de acasos. Movido por instinto, o pai sugeriu que Todd Sacktor ficasse de olho numa molécula. Ao se mudar da opulenta Universidade de Colúmbia para a menos glamourosa Universidade Estadual de Nova York, Sacktor descobriu um vizinho que iria lhe fornecer o argumento e confirmar a intuição do pai. Num laboratório com parca tecnologia e muita imaginação, o guianense André Fenton, especialista em memória espacial, comandava uma pesquisa inédita com ratos.

Cada um com seu eletrodo no topo da cabeça, os ratos da equipe de Fenton aprenderam a localizar objetos, no caso, um ponto que emitia choque elétrico numa câmara de acrílico. O trajeto percorrido para evitar o choque era o mesmo, no dia seguinte ou um mês depois. Após serem injetados com uma droga chamada ZIP, que altera o comportamento da PKMzeta, os ratos esqueceram completamente o trajeto. A experiência foi repetida com variações por Fenton e pesquisadores em outras instituições, sempre com o mesmo resultado: a memória foi apagada. A memória apagada poderá ser recuperada? O leque de benefícios potenciais é impressionante: do tratamento de dependência química ao de doenças que envolvam perda de memória e demência, como o mal de Alzheimer. Todd Sacktor explica que, ao entender os mecanismos de armazenamento da memória, novas revelações básicas sobre o aprendizado podem revolucionar a educação. "Suspeitamos que a conversão de uma memória de curto prazo para a de longo prazo acontece pela formação da PKMzeta em certas sinapses.

Nós aprendemos por repetição ou por motivação emocional. Quem sabe, não serão desenvolvidas drogas que aumentem a formação de PKMzeta e ajudem a capacidade de converter a memória curta para a de longo prazo?", especula o neurologista. "Algumas dificuldades de aprendizado parecem estar ligadas à incapacidade de produzir quantidades suficientes dessa molécula." A dupla de protagonistas desse passo importante da neurociência não podia ser mais diferente. Sacktor corresponde aos clichês do cientista – concentrado, fala frases curtas e é avesso a distrações. André Fenton sorri com facilidade e se diverte em fazer associações para ilustrar sua pesquisa. Na segunda conversa, depois da minha visita ao laboratório, pergunto a ele sobre um grande jazzista que entrevistei no passado, mas não identifico. Ao ouvir a gravação da entrevista, notei estranhas sinapses nas respostas do músico e compositor, então com mais de 70 anos. Ele começava pelo assunto da pergunta, mas migrava para outra lembrança e mais outra, e mais outra. Fenton se anima com a história. "Para começar, um músico de jazz é, por definição, um especialista em associações peculiares. O que você descreve é comum em pessoas que usaram certas drogas.

A força de uma sinapse é produzida pela PKMzeta. Por isso, o fio de pensamento de certas pessoas com alguma sequela neurológica ou doença (como a esquizofrenia), absolutamente natural para elas, parece absurdo para nós." A simples identificação da PKMzeta abre a porteira para uma infinidade de dilemas éticos. Afinal, a consciência é um pilar da moralidade. A memória forma nossa identidade e intriga artistas e filósofos desde Platão. O autor Jonathan Lehrer chegou a argumentar, no livro Proust Foi um Neurocientista, que Marcel Proust inaugurou a neurociência com o início da publicação de Em Busca do Tempo Perdido, em 1913. A capacidade de recorrer à memória, pessoal ou coletiva, é intrínseca ao progresso humano. Basta acompanhar o resultado recente da revelação dos memorandos sobre a tortura no governo Bush.

O país está dividido entre a opção de enterrar o passado ou produzir culpados para redimir a mancha na democracia americana. Pergunto a Todd Sacktor quais seus dilemas éticos, neste estágio da pesquisa. Ele me responde, sucinto, com uma pergunta: "Quem vai determinar quem terá acesso a drogas que aprimoram ou apagam a memória, se elas forem desenvolvidas?" André Fenton, mais otimista, preocupa-se com a carroça da angústia na frente do carro de boi científico. "Arrisco a previsão de que nunca vamos usar a droga ZIP", diz ele. E adverte que, até recentemente, não sabíamos quase nada sobre o armazenamento e a fisicalidade da memória. A novidade científica, o fato de que a base física da memória esteja ligada a uma molécula, é, na verdade, apenas o primeiro passo para entender o que é a memória. "Uma grande parte da biologia da memória ainda é fantasia", explica Fenton.

"Agora precisamos entender como a memória é organizada. O fato de que suprimimos memórias continua a ser um mistério absoluto para a ciência." Pergunto se ele costuma trocar figurinhas com psicanalistas e ele dá uma gargalhada. "Nós temos o mesmo objetivo, mas eles são muito mais práticos do que eu. Sem evidência física, querem ajudar o paciente a melhorar logo. Eu quero ajudar as pessoas. Mas não arrisco nenhum passo até entender o grande cenário."

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