‘Junk food’ pode ajudar macacos a lidar com estresse

Entre os macacos-reso do Centro Nacional de Pesquisas Primatas Yerkes em Atlanta, as moças de fino trato não são obcecadas com o peso. A comida está amplamente disponível e as fêmeas de bom status social se orgulham de não dispensar nada. Elas parecem não estigmatizar a obesidade – não há lugar para piadinhas sobre as gordinhas – e certamente não se transformam em raios-x sociais.

Na verdade, as fêmeas dominantes geralmente comem um pouco mais do que as subordinadas. Os macacos de menos status podem pegar a quantidade de comida que quiserem, mas aparentemente têm menos vontade de comer, talvez devido aos altos níveis de hormônios do estresse em seus cérebros. A angústia de estar constantemente bajulando seus superiores sociais parece frear seu apetite, como suspeitam os pesquisadores, pelo menos quando sua comida comum, rica em fibras e com baixo teor de gordura, é o prato do dia.

Mas imaginemos que eles sejam tentados com o equivalente a chocolate, batata frita e sorvete? Mark Wilson, neurocientista da Emory University, e sua equipe tentaram esse experimento no centro Yerkes ao instalar máquinas de alimentação com fornecimento constante de bolinhas com sabor de banana – não eram, assim, um sorvete com cobertura de chocolate, mas as bolinhas tinham quantidades de gordura e açúcar suficientes para agradar até o paladar humano. Em nome da ciência, eu provei algumas.

Quando essa comida ficou disponível, os macacos de menos status rapidamente desenvolveram um apetite. Eles começaram a ingerir significativamente mais calorias do que seus superiores sociais. Enquanto os macacos dominantes somente brincavam com as bolinhas doces e cheias de gordura como quem brinca com a comida no prato, os macacos subordinados continuavam a devorá-las depois de anoitecer.

Esses resultados podem não surpreender nenhum pobre assalariado estressado que liquida meio pote de sorvete à noite enquanto repassa as humilhações do dia. Mas o experimento intriga cientistas que estudam o consumo excessivo de fast-food por humanos, algo tão difícil de entender por haver diversos fatores envolvidos.

A vontade de comer dos macacos não é tão complicada. As macacas fêmeas não são moças de dieta que uma vez provaram uma comida proibida e desde então não conseguem se controlar. Elas não estavam se rebelando contra padrões de magreza impostos por revistas de moda tiranas. Elas não escolhiam comer porcaria porque não encontraram alternativa saudável. Não foram seduzidas por comerciais que diziam que elas mereciam uma pausa.

No caso dos macacos, a situação parece ser simples. Eles obtêm algum tipo de conforto que é particularmente atraente para os macacos subordinados. Uma possibilidade é que as comidas gordurosas ajudem a bloquear as respostas ao estresse dos macacos. Estudos com roedores mostraram que alimentos te alto teor calórico causam uma transformação metabólica, obstruindo a liberação de hormônios do estresse, como o cortisol.

Outra explicação possível, a mais plausível para os pesquisadores do centro Yerkes, é que as guloseimas ativaram uma série de reações químicas de recompensa no cérebro. Elas podem ter proporcionado o mesmo tipo de recompensa de dopamina da cocaína, que foi estudada em um experimento anterior com macacos na Wake Forest University.

Naquele experimento, os macacos dominantes não demonstraram muito interesse em pressionar uma alavanca que administrava uma dose intravenosa de cocaína. Mas os macacos subordinados, que começaram com receptores de dopamina comprometidos, empurravam a alavanca para receber mais cocaína, da mesma forma como os subordinados do primeiro estudo devoravam as bolinhas com sabor de banana. Wilson sugere que os macacos que comem guloseimas estão reforçando os sistemas de dopamina que foram diminuídos pelo estresse.

“Basicamente, comer alimentos calóricos se torna uma estratégia de superação para lidar com eventos do dia-a-dia de um indivíduo em situação social difícil”, afirmou Wilson. “Os subordinados não chegam a ser espancados, mas são assediados por macacos em posição superior. Se eles estão sentados em um lugar e um macaco dominante se aproxima, têm que ceder o lugar e se afastar dali. Eles estão sempre receosos.”

Os resultados parecem ratificar o famoso estudo do governo britânico sobre funcionários públicos, que revelou que trabalhadores subordinados eram mais obesos do que os de maior posição hierárquica. Apesar de os subordinados não serem pobres e terem plena assistência médica, seu status mais baixo estava relacionado a mais problemas de saúde.

Os novos dados sobre os macacos também respaldam um estudo americano que observou as tendências em relação ao lanche das mulheres. Após montarem um quebra-cabeça e gravarem um discurso, as mulheres foram tentadas com opções de barras de cereais de chocolate, batata frita, bolinhos de arroz e pretzel oferecidos pela equipe de pesquisadores, comandada por Elissa Epel, psicóloga na Universidade da Califórnia.

As mulheres que pareciam mais estressadas pelas tarefas, o que foi medido pelos níveis de cortisol, comeram mais dos lanches doces e altamente gordurosos, o mesmo comportamento observado nos macacos subordinados com altos níveis de cortisol. Porém, como alerta Wilson e outros colegas, vários outros fatores, além da posição social e do estresse, afetam a dieta e a circunferência da cintura.

Debra A. Zellner, psicóloga da Montclair State University, testou tanto homens quanto mulheres, colocando potes de batata frita, chocolates M&MS, amendoim e uvas roxas em uma mesa durante o tempo em que os participantes trabalhavam para resolver anagramas. Algumas pessoas receberam anagramas sem solução, e eles relataram de forma clara estarem mais estressados do que aqueles que receberam anagramas fáceis de resolver.

O estresse aparentemente afetou a opção de lanche de formas diferentes para cada sexo. As mulheres que receberam anagramas com solução comeram mais uvas do que M&MS, enquanto as mulheres sob estresse preferiram o chocolate. Os homens comeram mais das comidas gordurosas quando não estavam em situação de estresse, aparentemente porque aqueles que receberam anagramas fáceis tinham mais tempo para relaxar e conceder-se um pequeno prazer.

Zellner afirma que esses padrões de gêneros ocorrem provavelmente devido a uma simples diferença entre os sexos: mais mulheres estavam de dieta. Estudos anteriores demonstraram que tais “comedores reprimidos” têm mais tendência do que pessoas que não estão de dieta a devorar guloseimas uma vez que se entregam à tentação. Isso pode ocorrer por estarem com fome, mas também porque todo o controle desaparece uma vez que uma dieta é quebrada – a teoria do “não quero nem saber” que comanda os excessos.

Humanos não têm tanta sorte quanto os macacos em um aspecto. “Mulheres afirmam que comem alimentos de alto teor calórico para se sentirem melhor quando estão estressadas”, diz Zellner, “mas, na verdade, elas não se sentem bem depois de comê-los. Em vez disso, pelo fato de serem comedoras reprimidas, elas sentem culpa e acabam se sentindo pior. Macacas não têm essa bagagem cognitiva”.

Ao que parece, somente os macacos encontram conforto nas comidas “confortantes”.

NeuroCurso ® Todos os Direitos Reservados.