fbpx

Investigadores querem compreender como o cérebro reage à emoção

Optar por matar uma pessoa para salvar muitas outras, experimentar remorsos. Para compreender como o nosso cérebro reage e o papel da emoção na decisão, uma equipa de investigadores chefiada pelo português António Damásio submeteu estes dilemas a pessoas com lesões cerebrais particulares. Os pacientes cujo córtex frontal ventromediano – zona do cérebro situada acima dos olhos – está lesado têm geralmente menores reacções emocionais de dimensão social (compaixão, vergonha, culpabilidade) sem que a sua inteligência e a sua lógica sejam afectadas, segundo Damásio, da Universidade de Los Angeles, Califórnia. Com Ralph Adolphs, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e outros especialistas em neurociência, colocou 30 pessoas, seis das quais com estas lesões cerebrais, face a escolhas moralmente difíceis, implicando sacrificar uma pessoa para salvar outras.

Exemplo de cenário proposto: num laboratório foram preparadas duas substâncias – um líquido tóxico e uma vacina contra um perigoso vírus mortal que se propaga. A única forma de identificar a vacina é testar estas substâncias em dois pacientes. Estarias pronto a matar um deles para salvar muitas outras vidas? Confrontados com este tipo de dilema, os participantes com o córtex frontal ventromediano lesado responderam muito mais frequentemente «Sim», sem hesitações, do que os outros voluntários (22 com outros tipos de lesões cerebrais e 12 sem lesões neurológicas). As suas opções lógicas em favor de um bem maior são consideradas «utilitaristas» pelos investigadores. O que não significa forçosamente que agissem realmente como afirmam, nota uma outra especialista.

Conflito interior

“Em tais circunstâncias, a maioria das pessoas sem lesões cerebrais específicas ver-se-ia confrontada com um conflito interior. Mas estes pacientes particulares não parecem experimentá-lo”, explicou António Damásio na revista científica britânica «Nature», que apresenta os seus trabalhos. Normalmente, um sentimento de aversão mistura a recusa do acto, emoções de dimensão social, compaixão pela pessoa envolvida, impede um homem de fazer mal a outro, acrescentou. Face a outras escolhas menos difíceis (como guardar ou não um porta-moedas encontrado na rua), poucas diferenças de reacções foram observadas entre os três grupos participantes. Preocupado em distinguir o que resulta de uma aprendizagem social do que provém da própria estrutura do cérebro, Marc Hauser, da Universidade de Harvard, considera que este trabalho prova directamente o papel das emoções nos julgamentos morais.

Deixe um comentário