Estudos mostram os limites da neurociência

Paloma Oliveto

Brasília – Do amor à preferência musical, da crença em Deus às escolhas políticas, do porquê alguém gostar mais de verde que de amarelo – o cérebro explica. Para tudo existe resposta neurológica: a paixão por gadgets, a obsessão por dietas, a vontade incontrolável de atacar uma barra de chocolate e até a habilidade de Bruce Lee de executar seu famoso soco de uma polegada. Nem os sete pecados capitais escaparam, sendo apoderados por pesquisadores que encontraram na ativação da região X ou Y a origem de ira, gula, avareza, luxúria, inveja, preguiça e vaidade.

Em plena era da neurociência, contudo, nem todos os especialistas concordam que o órgão mais misterioso do corpo é 100% responsável pelo comportamento. Para esses cientistas, creditar a reações químicas cerebrais todo tipo de crença e conduta é uma visão materialista e reducionista, adotada por quem não quer admitir que, na verdade, muito pouco se sabe sobre a mente e a consciência humanas, entidades que não podem ser vistas nem medidas.

Até a década de 1990, questões como espiritualidade, paixão e personalidade eram estudadas principalmente à luz de filosofia, religião e psicologia. Mas, então, começou a se popularizar uma máquina “leitora de mentes”, o escâner de ressonância magnética, idealizado pelo armênio Raymond Vahan Damadian em 1969. O exame revolucionou a medicina diagnóstica. Sem emitir radiação, ele é capaz de mostrar o interior do corpo em detalhes que, até aquela época, jamais haviam sido visualizados em uma pessoa viva. Dessa forma, a ressonância revela problemas diversos: de tumores a tendinites.

No campo da neuropsiquiatria e da neuropsicologia, o equipamento também se mostrou valioso, pois ele exibe, em uma tela, as mudanças fisiológicas ocorridas no cérebro, relacionadas a processos mentais. Há 20 anos, foi publicado o resultado do primeiro estudo científico que utilizou a ressonância para vasculhar a mente. O exame consegue, por exemplo, indicar que regiões do órgão se ativam no momento em que um indivíduo com anorexia visualiza a imagem de um sanduíche. Ou como o órgão se comporta quando uma pessoa apaixonada escuta a voz do amado.

Relações

“Aplicada à investigação básica das funções cognitivas, essa técnica permite adentrar-se na relação entre o cérebro e a conduta, possibilitando explorar desde a percepção sensorial até os processos mentais mais complexos, tais como a resolução de problemas matemáticos ou os juízos morais”, explicam os neurocientistas Jorge L. Armony, David Trejo-Martínez e Dailett Hernández em um artigo publicado na revista Neuropsicologia Latinoamericana. “Também possibilita fazer distinções de funcionalidades entre regiões cerebrais específicas (…) e explorar diferenças entre populações clínicas, com a finalidade de identificar o correlato neural de um transtorno neurológico ou psiquiátrico”, escrevem.

A ressonância tem ajudado, por exemplo, a compreender o que se passa no cérebro de um psicopata. Esse transtorno antissocial desafia os estudiosos dos distúrbios da mente, que não conseguem encontrar explicações para o fato de algumas pessoas serem completamente indiferentes à dor e ao sofrimento de outros seres vivos. Na tentativa de se encontrar bases fisiológicas para essa condição marcada pela falta de empatia, muitos cérebros de criminosos já foram escaneados, com resultados bastante sugestivos.

Há cerca de três meses, um artigo publicado na revista especializada Frontiers in Human Neuroscience mostrou que, ao imaginar outras pessoas sofrendo fisicamente, o cérebro de 121 psicopatas detidos em prisões americanas não exibiu atividade em regiões previamente relacionadas à empatia para a dor, como a ínsula anterior, o córtex cingulado médio anterior e a amígdala direita. Mais do que isso, áreas cerebrais envolvidas na sensação de prazer, como o estriato ventral, se ativaram diante de imagens como o dedo de uma pessoa sendo esmagado pela porta.

Da mesma forma, outros estudos demonstraram um comportamento cerebral diferente em indivíduos que sofrem de diversos distúrbios mentais, como transtorno compulsivo-obsessivo (TOC) e depressão. “Isso é ótimo, mas explica muito pouco sobre essas condições”, opina Martha Farah, neurocientista cognitiva da Universidade da Pensilvânia, que pesquisa as implicações sociais do diagnóstico neurológico. “Nas duas últimas décadas, muitos pesquisadores têm usado a ressonância para tentar responder a diversas questões sobre mente e cérebro, mas muitos de nós não estamos convencidos da utilidade desse método. A abordagem, embora de apelo sedutor, trouxe poucos avanços para nosso conhecimento a respeito dos processos cognitivos”, acredita.

Abusos Sem se desfazer da importância da neuroimagem, a psiquiatra e escritora americana Sally Satel fez uma coletânea de estudos que abusam da ressonância para explicar o comportamento humano e critica a ideia de que tudo no cotidiano seja necessariamente relacionado a ativações de regiões cerebrais. Coautora do livro Brainwashed: The seductive appeal of mindless neuroscience (Lavagem cerebral: o apelo sedutor da neurociência insensata, em tradução livre), ela argumenta que os exageros de uma posição que chama de “neurocêntrica” podem mais atrapalhar que ajudar. “Essa visão da mente tem o potencial de minar nossas ideias mais arraigadas sobre indivualidade, livre arbítrio e responsabilidade pessoal, nos colocando sob o risco de cometer erros graves, seja nos tribunais, nas salas de interrogatório ou nas clínicas de tratamento de dependência química”, defende.

Caçadora de pesquisas populares em sites de ciência, Satel pergunta quantas vezes não se veem notícias com uma tendência sensacionalista, acompanhadas de títulos como “Seu cérebro quando você está apaixonado”, “Seu cérebro quando você tem fome”, “Seu cérebro quando você ouve música”, “Seu cérebro quando você medita”, como se os pontinhos luminosos exibidos pela ressonância fossem um retrato fiel da mente, capazes de descortinar os mais profundos mistérios humanos. Uma dessas pesquisas – que não à toa recebeu o título “Esse é seu cérebro na política”, no jornal The New York Times –, mostrou, em 2007, o cérebro de eleitores quando expostos a imagens de 20 pessoas, incluindo políticos como Hillary Clinton e Rudy Giuliani, apontados, naquele ano, como fortes candidatos às eleições de 2008 nos EUA.

Com base nas imagens de ressonância obtidas depois de uma hora de medição da atividade cerebral dos participantes do estudo, os autores da pesquisa prediziam as chances de cada candidato. “Barack Obama e John McCain têm trabalho a fazer”, afirmaram. “As imagens geradas quando os participantes viram o primeiro conjuntos de fotos e vídeos do sr. McCain e do sr. Obama indicaram uma notável falta de qualquer reação de poder, positiva ou negativa”, continuaram. No fim, foram justamente os dois que se enfrentaram no pleito – nem é preciso dizer que o candidato que não fez acender nenhuma “luzinha” no cérebro dos voluntários elegeu-se duas vezes para o mais importante cargo do mundo.

Causa ou consequência

O psiquiatra brasileiro Alexander Moreira-Almeida, neurocientista e diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explica que, no cérebro, o que a ressonância magnética funcional faz é mostrar, de forma indireta, as áreas que receberam maior fluxo sanguíneo em determinado momento. O problema, para ele, é que as pessoas acabam confundindo os correlatos neurais.

“Se uma pesquisa mostra que, durante a prática meditativa, ativa-se certa região do cérebro, alguns podem dizer: ‘Está vendo? O efeito da meditação pode ser explicado… assim”, exemplifica. “De modo geral, os autores procuram alterações no cérebro relacionadas ao comportamento, mas não olham o inverso”, defende o psiquiatra. Moreira-Almeida cita estudos recentes sobre a anorexia que tentam explicar o distúrbio como consequência de alterações conectivas em redes de neurônios. Contudo, ele lembra que a supressão radical na ingestão de alimentos desencadeia desnutrição crônica, um problema que, por sua vez, afeta o cérebro, atrofiando certas áreas. Em vez de causa, essas alterações apareceriam em função do problema.

Nos anos 1990, imagens funcionais indicaram que o transtorno obsessivo-compulsivo também mudava a configuração do cérebro. Mas, no mesmo estudo, os pesquisadores constataram que, depois de um tempo se tratando, tanto os pacientes que tomaram remédio quanto aqueles que só fizeram terapia comportamental sofreram novas modificações cerebrais – o órgão voltou a se comportar como o de pessoas saudáveis. “Da mesma forma que o cérebro altera a mente, a mente altera o cérebro”, define Moreira-Almeida.

EM

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