Ecstasy: Droga ou remédio?

Em entrevista à CH On-line, neurocientista dinamarquesa fala sobre estudos que buscam compreender a ação do ‘ecstasy’ e de outros alucinógenos na química cerebral e no humor dos usuários e os potenciais benefícios de seu uso médico controlado.

Em 1914, pesquisadores alemães criaram uma pílula supressora de apetite para soldados em situação de fome em campos de batalha. O medicamento começou a mostrar que tinha efeitos sobre o humor e a consciência humana e passou a ser prescrito por psiquiatras como auxílio para terapias, até que se tornou ilegal em vários países a partir de década de 1980 sob a alegação de provocar dependência e problemas à saúde.

Trata-se do ecstasy. Conhecida como a ‘droga do amor’ por deixar seus usuários felizes e empáticos, a substância, ilícita no Brasil, tem sido alvo de pesquisas que buscam reintroduzi-la no ambiente médico. Estudos que tentam compreender os possíveis efeitos benéficos desse e de outros alucinógenos vêm sendo conduzidos pela neurocientista dinamarquesa Gitte Knudesen, pesquisadora-chefe da Unidade de Pesquisa em Neurobiologia do Hospital da Universidade de Copenhague (Dinamarca) e representante da Fundação Europeia para Pesquisa do Cérebro Grete Lundbeck.

Em entrevista à CH On-line, Knudesen comenta a possibilidade de uso médico do ecstasy e outras drogas – como a ayahuasca, bebida feita de plantas amazônicas cujo consumo está associado a algumas religiões no Brasil. Ela também fala sobre suas pesquisas mais recentes, que usam a neuroimagem para identificar a ação dessas substâncias no cérebro.

Gitte Knusen

A neurocientista Gitte Knusen. (foto: Andre Aron)

Nos últimos anos, a senhora tem estudado a ação do ecstasy e de outras drogas alucinógenas no cérebro. Pode nos contar sobre sua pesquisa?
Há indicações de que essas drogas podem ajudar pessoas que sofrem de depressão ou estresse pós-traumático, especialmente o ecstasy e o DMT, um dos compostos da ayahuasca, bebida bastante apreciada no Brasil. Encaramos essas substâncias como drogas recreacionais e não como relacionadas ao abuso de entorpecentes, pois elas não têm um efeito viciante forte. Estamos interessados em olhar para o seu potencial médico.

Nos últimos anos, fizemos muitas pesquisas com usuários de ecstasy e agora estamos olhando para esses outros compostos alucinógenos. O ecstasy também atua como alucinógeno, mas de maneira muito leve. Sua principal ação é provocar a liberação de serotonina, um neurotransmissor associado à sensação de prazer, alegria e euforia. Como ele te faz sentir muito empático e inclinado a confiar em outras pessoas, os cientistas estão começando a olhar para seus potenciais benefícios.

A maioria das pessoas pensa no ecstasy apenas como uma droga ruim. É claro que não é saudável para o cérebro tomar altas doses da droga, mas o que estamos interessados em olhar é o potencial benefício do uso controlado do ecstasy e de uma classe de componentes alucinógenos que se assemelham ao ecstasy, mas que não provocam a liberação de tanta serotonina.

O que a senhora tem observado em suas pesquisas com o ecstasy?
Quando você toma uma alta dose de ecstasy, uma quantidade muito grande de serotonina é liberada no seu cérebro, te deixando feliz, de maneira semelhante à ação de alguns antidepressivos. Mas o ecstasy também age sobre os receptores alucinógenos do cérebro chamados 5-HT2A, o que proporciona ‘experiências coloridas’ e a sensação de união com a natureza.

Essas mudanças de consciência podem ser muito interessantes. Sabemos muito pouco sobre a consciência e sobre como o cérebro pode se aproveitar dos estados alterados de consciência. A literatura científica e a mídia geralmente focam mais os potenciais efeitos neurotóxicos do ecstasy e menos como ele funciona de verdade. Existe uma atitude muito política sobre o ecstasy, que acho que de certa forma se justifica, mas que tem sido exagerada. Existem muitos outros compostos, muitos deles lícitos, que são muito mais danosos ao cérebro que o ecstasy.

Desenhos psicodélicos

Segundo a neurocientista Gitte Knusen, as drogas alucinógenas abrem caminho para o estudo da consciência e de seus estados alterados. (foto: Flickr/ nwe1iluminati – CC BY 2.0)

Como esses efeitos do ecstasy poderiam ser aproveitados para fins médicos?
Nossos estudos mostram que os usuários de ecstasy respondem de maneira mais ativa às emoções positivas que às negativas. Fizemos alguns testes em que demos imagens de expressões faciais a usuários de ecstasy e pedimos que eles as identificassem. Percebemos que eles se saíram melhor que o grupo controle (de não usuários de drogas) para reconhecer expressões positivas, como de alegria e de fantasia, e tiveram uma performance pior para identificar as expressões negativas, de raiva e desdém, por exemplo.

Alguns cientistas pensam em combinar o ecstasy com a psicoterapia

As pessoas reagem de modo diferente ao ecstasy, mas tudo tem a ver com a dosagem. Se você der a dose certa, a pessoa passa a responder mais a emoções positivas e confiar mais nas pessoas. Por isso, alguns cientistas pensam em combinar o ecstasy com a psicoterapia. Em uma sessão de psicoterapia, é muito importante que o paciente confie no pscioterapeuta e o ecstasy pode auxiliar nisso, ajudando o paciente a ter o sentimento certo para a terapia funcionar.

Para fins de tratamento, a ação alucinógena do ecstasy poderia ser bloqueada, deixando apenas a ação da serotonina sobre o cérebro?
Sim, podemos bloquear diferentes partes da droga ao combinar compostos diferentes. Mas o ecstasy não é tão alucinante quanto a ayahuasca, por exemplo. Ele é considerado um alucinógeno leve e não é conhecido por suas propriedades viciantes. Ele é, na verdade, um composto muito pouco viciante, diferentemente da cocaína, por exemplo. Então não precisamos nos preocupar com isso. O problema do ecstasy é que muitas vezes os seus usuários não usam somente essa droga, mas a combinam com álcool, maconha e outros – e essa não é uma boa mistura para o cérebro. Mas, de uma forma controlada, é absolutamente possível explorar os efeitos médicos do ecstasy.

A senhora mesma comentou que o ecstasy é visto de forma negativa e não podemos negar que é uma droga que pode ter efeitos negativos no usuário. A senhora não enfrentou nenhum problema de ordem ética e legal para conduzir suas experiências?
Eu, pessoalmente, só estudei usuários de ecstasy, não dei a droga a eles. Recentemente, conduzimos esse estudo para mapear a ação de compostos alucinógenos no cérebro de humanos, mas foram doses muito pequenas, cerca de 1,5 microgramas, só para ter a sua imagem no cérebro. Nós não tivemos nenhum problema com esse estudo. No meu país, não existe um entrave ético e, mesmo em outros países, como Reino Unido e Holanda, os pesquisadores têm recebido permissão dos comitês de ética para fazer isso, inclusive para dar ecstasy para pessoas em testes clínicos.

Em relação às suas pesquisas sobre a atuação de outras drogas alucinógenas – como a ayahuasca – no cérebro, já há algum resultado?
No momento, estamos conduzindo estudos de neuroimagem e tomografia para ver imagens do cérebro ao vivo e descobrir como essa segunda classe de drogas atua. Ainda é uma fase muito inicial, em que estamos simplesmente usando esses compostos alucinógenos como uma ferramenta para visualizar os receptores cerebrais. Por meio de exames de imagem, como tomografia, estamos tentando identificar a ação desses compostos no cérebro de pessoas que tomaram pequenas doses deles. É uma primeira etapa da pesquisa, em que temos que validar os compostos e descobrir como quantificá-los no cérebro e, para isso, precisamos criar alguns modelos de análise.

Por meio de exames de imagem, como tomografia, estamos tentando identificar a ação desses compostos no cérebro de pessoas que tomaram pequenas doses deles

Na segunda etapa, no mês que vem, vamos ver se esses compostos podem ser usados para medir mudanças nos níveis de serotonina no cérebro. Queremos saber se vai ser possível escanear o cérebro de uma pessoa que está tomando ayahuasca, por exemplo, e ver como as imagens cerebrais mudam quando essa pessoa está fazendo algum tipo de tarefa. Basicamente, ainda estamos desenvolvendo a ferramenta para analisar tudo isso e, quando tivermos validado nossos dados, vamos poder começar a usar em mais pessoas para ver como o cérebro delas está mudando.

No Brasil, temos alguns grupos de estudo que também investigam a ação da ayahuasca como forma de terapia. A senhora tem algum contato ou pretende fazer algum tipo de colaboração com cientistas brasileiros?
Ainda não, mas estamos pensando em estabelecer uma relação, porque o mais interessante sobre a ayahuasca é que é uma droga muito limpa, as pessoas que tomam não costumam usar outras drogas.

Um dos maiores problemas que enfrentamos nos estudos sobre drogas é a grande dificuldade de achar pessoas que não combinem drogas. Na Dinamarca, por exemplo, parece haver dois tipos de pessoas que usam ecstasy. Um grupo são os jovens que tomam ecstasy e tudo mais que estiver à disposição. O segundo grupo, que geralmente usa o ecstasy em pó, toma menos de outras drogas, tem mais consciência do que a substância faz ao cérebro e a usa de forma mais espiritual. Mas sempre há mistura de drogas e fica difícil identificar em um estudo a ação de uma droga isolada se as pessoas combinam várias.

Eu gostaria muito de trabalhar com pesquisadores brasileiros, eu ficaria feliz em oferecer esses métodos de neuroimagem que estamos desenvolvendo.

Ciencia Hoje

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