Detectadas diferenças no cérebro de pessoas que sofrem de enxaqueca

No trabalho, publicado esta semana na revista PLoS Medicine, de acesso livre na Internet, investigadores da Escola Médica de Harvard, nos Estados Unidos, relatam a descoberta de que duas áreas do córtex cerebral são mais espessas em quem sofre de enxaqueca do que em indivíduos saudáveis.

A enxaqueca, uma condição clínica de gravidade variável, afeta mais do que uma em cada dez pessoas ao longo das suas vidas. É caracterizada por dores de cabeça agudas, náuseas, vômitos e hipersensibilidade à luz. Em algumas pessoas, as dores de cabeça são precedidas por perturbações neurológicas, conhecidas como “aura”, que afetam a visão e causam a ilusão de flashes de luz, linhas em zigue-zague ou pontos negros. Os episódios de enxaqueca podem ser desencadeados por fatores muito variados: alimentos, tensão, luzes brilhantes, desidratação ou fome são alguns, mas cada paciente tem de aprender o que provoca os seus ataques.

Não se sabe o que causa exatamente a enxaqueca, mas alguns cientistas pensam que o cérebro das suas vítimas é hiperexcitável – ou seja, algumas células nervosas reagem de forma exagerada quando recebem estímulos do corpo. Isto gera uma perturbação, que causa a aura, dores de cabeça e os restantes sintomas.

Para procurar eventuais diferenças no córtex cerebral que pudessem constituir a base anatômica da enxaqueca, os investigadores usaram duas técnicas de imagem por ressonância magnética, um método não invasivo de obter imagens de órgãos internos. Foram analisados 24 pacientes de enxaqueca (12 que sofrem do tipo de enxaqueca com aura e outros 12 do tipo sem aura), além de 15 pessoas saudáveis com a mesma distribuição etária, que serviram de controle.

Foram estudadas duas áreas cerebrais relacionadas com a percepção visual do movimento (conhecidas por MT+ e V3A). Verificou-se que a espessura cortical de ambas as áreas é maior nos indivíduos com enxaqueca do que nos saudáveis. Não foram, no entanto, encontradas diferenças na espessura cortical entre pacientes com aura e sem aura.

Até agora, pensava-se que um funcionamento anormal do cérebro causava a enxaqueca, mas que os pacientes tinham uma estrutura cerebral normal. O estudo também parece indicar que a enxaqueca com aura é a mesma condição neurológica do que a enxaqueca sem aura.

“Esta descoberta não tem, para já, uma aplicação prática na abordagem clínica dos doentes, mas poderá permitir o desenvolvimento de novos tratamentos no futuro”, comenta Raquel Gil Gouveia, neurologista da consulta de cefaléias do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “Achei muito interessante, pois é a primeira vez que se identificam diferenças no cérebro das pessoas que têm e não têm enxaqueca.” Uma das aplicações possíveis é o desenvolvimento de métodos de diagnóstico, sugerem os autores. “Mas são técnicas complicadas e o diagnóstico clínico já é fácil de fazer”, acrescenta Raquel Gil Gouveia.  

Veja o artigo original deste estudo

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