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Cigarro causa dependência afetiva

Além do prejuízo à saúde, há o ônus financeiro. Tomando como base o preço médio de R$ 2,80 por maço, para um indivíduo que consome uma carteira de cigarro ao dia, no ano a despesa será de R$ 1.022,00. Motivos não faltam para largar o tabagismo e, com o intuito de incentivar as pessoas a deixarem o cigarro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu para o Dia Mundial sem Tabaco (31), neste ano, o seguinte tema: "Ambientes Livres de Tabaco". A escolha não foi ao acaso. A OMS estima que, em todo o mundo, haja 1,3 bilhão de fumantes. E essas pessoas colocam em risco também a vida dos que não fumam, sobretudo, nos ambientes de trabalho. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), ao menos 200 mil trabalhadores a cada ano morrem em decorrência de algum mal causado pela fumaça ambiental do tabaco. "Quem fuma e quem está ao lado não se dá conta de que absorve uma série de substâncias que fazem mal, como raticidas. O que chama a atenção também é que, apesar de saber que o cigarro faz mal, há um percentual, perto de 70%, de pais que fumam na frente dos filhos", informa José Miguel Chatkin, chefe do Serviço de Pneumologia do Hospital São Lucas da PUC de Porto Alegre (RS). Essa situação explica, em partes, a posição da OIT em considerar o tabagismo uma doença profissional. O grau de dependência causado pelo cigarro, faz com que os fumantes não deixem de fumar, mesmo sabendo que, em ambientes fechados, eles causam malefícios ao seu amigo, colega de trabalho ou filho. O tema da OMS deve gerar uma regulamentação no Brasil que proíbe o fumo em ambientes fechados. Segundo o pneumologista coordenador do programa PrevFumo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Sérgio Ricardo dos Santos, quando essas leis são propostas como forma de proteger os não fumantes, estão corretas. Ele ainda avalia que há benefícios para os fumantes, já que o consumo de cigarros tende a diminuir, mas pondera: "É preciso entender a posição do fumante, às vezes ele quer parar, mas é dependente. Pode ser que muitos parem de fumar por conta disso, mas o ideal seria que ocorresse voluntariamente." O tabaco, segundo a OMS, é responsável por 5 milhões de mortes anualmente e o tabagismo passivo já é considerado, pela organização, a terceira causa de morte evitável. No Brasil, onde o tabagismo atinge 2% da população, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que o número de óbitos seja de 200 mil por ano. Mesmo com todo esse cenário, que pode ser considerado desastroso, os fumantes encontram muitas dificuldades para deixar o vício. "Às vezes, o fumante se diz viciado, mas ele não tem a compreensão exata do que isso significa. Existem ainda os conceitos falsos colocados pela indústria do tabaco de que o cigarro é fonte de prazer, um companheiro", explica Ciro Kirchenchtejn, pneumologista coordenador do Help Fumo, um Centro de Tratamento para Dependentes de Nicotina, ligado ao Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo. Através desses conceitos, que acabaram incorporados à cultura até dos não adeptos ao tabagismo, o fumante cria uma relação muito complexa com o cigarro. Como explicou o especialista, é um vínculo que extrapola os fatores químicos, passa a ser algo afetivo. A pessoa, enquanto paciente, chega a encarar o cigarro como se fosse um outro indivíduo. E todo esse processo é gerado pela ação da nicotina, substância que consegue alterar de forma majestosa a estrutura do sistema límbico – um setor que controla as emoções no cérebro. A nicotina é capaz de agir dessa forma por possuir estrutura química semelhante à da acetilcolina, que estimula o neurônio a produzir outros neurotransmissores, sendo o principal deles a dopamina – responsável pela sensação de prazer e recompensa. Como a nicotina tem um tempo de ação determinado no organismo (algo em torno de duas horas), a pessoa busca um novo cigarro cada vez que o nível de dopamina é reduzido. Caso contrário, ela se sente irritada, perde a concentração. "O prazer tem a função de estimular a repetição do comportamento. Comi algo gostoso, volto a comer. Após três meses de uso contínuo da nicotina, o cérebro só produz dopamina com o uso da substância", alerta Kirchenchtejn, que também atua no serviço antitabagismo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, na capital paulista. PROBLEMA SOCIAL – Além de pôr em risco a própria saúde e a de terceiros, o fumante cria para si um outro problema: sem perceber, passa a evitar a vida social. Um exemplo fácil de visualizar é quando essas pessoas recusam ir ao cinema quando os filmes têm mais de duas horas de duração. O filme pode ser ótimo, estar legal e a companhia ser boa, mas ele ficará desconcentrado pensando na próxima tragada. Um levantamento feito pelo site "Eu Quero Parar", por exemplo, mostrou que 83% dos tabagistas já fumou seu primeiro cigarro até uma hora após sair da cama. Outro ponto da pesquisa, que contou com a participação de 4.300 fumantes, é que apenas um terço dessas pessoas entendem o tabagismo como uma doença. Dada a situação, um das barreiras em tratar esse problema é fazer com que os fumantes entendam o tabagismo como dependência, algo que gera um prazer momentâneo e depois causa desprazer. "Uma das bases do tratamento é a terapia cognitiva comportamental. Você começa a mudar no paciente o entendimento sobre o ato de fumar. Quando conseguimos isso, iniciamos a terapia de comportamento", diz Kirchenchtejn. Para Chatkin, da PUC de Porto Alegre, existem duas formas de abordar a dificuldade em tratar o tabagismo: "Uma é individualmente, o paciente precisa estar motivado, interessado, não pode vir carregado. Outra coisa é o ponto de vista macro, que são as políticas de restrição ao tabagismo, como elevar o preço. É a maneira mais eficaz, estudos comprovam isso. Claro que precisa haver repressão ao contrabando." O tratamento oferecido nos centros de referência em todo o País – como é o caso do PrevFumo, HelpFumo e do Serviço de Pneumologia da PUC de Porto Alegre -, segue as recomendações da OMS e do Instituto Nacional do Câncer (Inca), que é o uso de um treinamento de habilidade, uma versão simplificada da intervenção comportamental. "Ele serve para ensinar a pessoa a lidar com os aspectos psicossomáticos do tabagismo. No PrevFumo, a pessoa terá um acompanhamento por 6 encontros e, depois, é orientada a participar de encontros de manutenção, mensalmente, até completar um ano sem fumar", explica Santos, da Unifesp. Além das conversas em grupo, os pacientes que freqüentam esses centros fazem uso de medicamentos, de acordo com o perfil e grau de dependência. Até o ano passado, além da reposição de nicotina (através de adesivos e gomas de mascar), essas pessoas eram medicadas com antidepressivos, como a bupropiona, que têm um bom índice de sucesso e preços mais acessíveis em versões genéricas. Neste ano, os fumantes passaram a ter uma nova opção: o tartarato de vareniclina, comercialmente conhecido como Champix, do laboratório Pfizer. Trata-se de uma nova classe de medicamento que tem eficácia 50% superior às terapias atuais. "A droga se conecta aos receptores de nocotina no cérebro e promove a liberação de um grande número de neurotransmissores, sendo o mais importante a dopamina. Quando a pessoa fuma, ela procura a liberação dessa substância. Como a vareniclina se gruda ao receptor da nicotina, se a pessoa fumar, não terá prazer adicionais", avalia Chatkin.

O tratamento com a nova medicação dura, em média, 12 semanas, sendo dois comprimidos ao dia. Entre os efeitos colaterais destacam-se: náuseas, cefaléias e insônia. Segundo os especialistas, nenhuma ocorrência grave foi observada e os efeitos registrados não obrigam o paciente a parar o uso do remédio. O medicamento é contra-indicado para gestantes, menores de 18 anos e pacientes com insuficiência renal grave. Apesar dos avanços, Santos, que coordena do PrevFumo, serviço com média de 5 mil atendimentos por ano, lembra que só o remédio não basta. "O medicamento trata a dependência física, a questão comportamental é com a orientação do médico. O fumante precisa aprender a dizer não", afirma. SERVIÇO: Help Fumo Tel.: (21) 3288-1255 Na internet: www.helpfumo.com.br PrevFumo Tel.: (21) 5579-3412 – em horário comercial. Hospital São Lucas (PUC-RS) (51) 3320-3000 Disque Saúde Tel.: 0800-61-1997 (serviço do Ministério da Saúde informa os centros de tratamento disponíveis em todo o País). Eu quero Parar Na internet: www.euqueroparar.com.br BOXE LIVRO ABORDA TRATAMENTO Às vésperas do Dia Mundial Sem Tabaco, a MG Editores preparou uma versão atualizada do livro "Deixar de Fumar ficou mais Fácil", de autoria da cardiologista Jaqueline Scholz Issa, coordenadora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Incor-HCFMUSP). O texto, baseado em pesquisa e na prática médica da autora, traz detalhes sobre o que é preciso para iniciar o tratamento da doença e lembra sobre os serviços gratuitos de ajuda especializada

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