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Cientistas usam espelhos para interpretar a auto-percepção humana

As pessoas há muito tempo têm fascinação por espelhos, sendo um deles central para uma obra de arte do século XVII de Rubens. Elefantes asiáticos estão entre os poucos animais que se reconhecem em reflexos no espelho. Mas por que o ser refletido obedece a regras tão absurdas?

Para o jovem Narciso, o do mito, o espelho virou uma fantasia fatal e o lindo rapaz preferiu morrer em um lago espelhado a ter que deixar seu “amado” para trás. Para o narcisista maduro do 62º soneto de Shakespeare, o espelho trouxe um golpe muito necessário à sua vaidade, a visão de um rosto “usado e gasto por uma antigüidade castigada” delineando os limites do amor-próprio.

Feitos de metal altamente polido ou de vidro com uma camada de metal na parte de trás, os espelhos fascinam seres humanos há milênios: egípcios da Antigüidade freqüentemente eram retratados segurando espelhos de mão. Com sua capacidade de refletir de volta praticamente qualquer luz que incide sobre eles e de então recapitular a cena, os espelhos são como pedaços de sonhos, suas imagens são hiper-reais e profundamente falsas. Espelhos revelam verdades que talvez não desejemos ver. Dê a eles um pouco de fumaça e uma casa para chamarem de suas, e os espelhos dirão somente mentiras.

Para cientistas, a simplicidade simultânea e a complexidade dos espelhos os tornam ferramentas poderosas para explorar questões sobre percepção e cognição em humanos e outras espécies com neurônios, e como o cérebro interpreta e age sobre as grandes ondas de informação sensorial vindas do mundo externo. Eles estão usando espelhos para estudar como o cérebro decide o que é o ser e o que é o outro, como ele julga distâncias e trajetórias de objetos, e como ele reconstrói a rica característica tridimensional do mundo exterior a partir do que é essencialmente uma fotografia bidimensional tirada pela lâmina achatada de células receptoras da retina. Eles estão empregando espelhos na medicina, para criar imagens refletidas de membros ou outras partes do corpo de pacientes e assim enganar o cérebro para promover a cura. A terapia com espelhos tem tido sucesso no tratamento de distúrbios como síndrome do membro fantasma, dor crônica e paralisia pós-derrame cerebral.

“De certa forma, espelhos são o melhor sistema de ‘realidade virtual’ que poderíamos construir”, afirmou Marco Bertamini, da Universidade de Liverpool. “O objeto ‘dentro’ do espelho é virtual, mas até onde nossos olhos entendem, o objeto existe tanto quanto qualquer outro.” Bertamini e colegas também estudaram o que as pessoas acreditam sobre a natureza dos espelhos e imagens refletidas, e descobriram que praticamente todo mundo, até estudantes de física e matemática, têm percepções surpreendentemente equivocadas.

Outros pesquisadores determinaram que espelhos podem afetar sutilmente o comportamento humano, muitas vezes de formas inesperadamente positivas. Descobriu-se que pessoas analisadas em uma sala com um espelho trabalham mais, são mais prestativas e têm menos tendência a trapacear, em relação a grupos de controle desempenhando as mesmas tarefas em ambientes sem espelho.

Conforme relataram no Journal of Personality and Social Psychology, C. Neil Macrae, Galen V. Bodenhausen e Alan B. Miln descobriram que pessoas em um ambiente com espelho tiveram comparativamente menor tendência a julgar os outros com base em estereótipos sociais como, por exemplo, sexo, raça ou religião.

“Quando as pessoas são forçadas a terem consciência de si próprias, têm maior tendência a parar e pensar sobre o que estão fazendo”, disse Bodenhausen. “Um resultado dessa consciência pode significar uma mudança, de agir no piloto automático para adotar formas mais desejáveis de comportamento”. O auto-reflexo físico, em outras palavras, motiva a auto-reflexão filosófica, um curso intensivo sobre o conceito socrático de que você não pode conhecer ou apreciar os outros se não conhece a si próprio.

As técnicas com espelho nem sempre evitam que os joelhos tremam. Quando se fala em formas socialmente aceitáveis de estereotipar, disse Bodenhausen, como classificar todos os políticos como ladrões ou todos os advogados como mentirosos, a presença de um espelho pode acabar aumentando em vez de conter a predisposição a rotular os outros. 

A relação entre autoconsciência e sociabilidade desenvolvida pode ajudar a explicar por que algumas espécies não-humanas que reconhecem a si próprias no espelho são aquelas que têm vidas sociais complexas. Nossos primos sociais hominídeos – chimpanzés, chimpanzés pigmeus, orangotangos e gorilas – junto com golfinhos e elefantes asiáticos, passaram no teste de auto-reconhecimento no espelho, o que significa que, diante de um espelho, eles irão analisar de perto marcas que foram aplicadas em seus corpos. Os animais também irão avaliar a própria higiene, checando sua boca, narinas e genitais.

Ainda assim, nem todos os membros de uma espécie aprovada no teste do espelho irão passar no exame. Segundo Diana Reiss, professora de psicologia da Hunter College, que estudou auto-reconhecimento em espelhos entre elefantes e golfinhos, surpreendentemente, “animais criados em isolamento não parecem demonstrar a habilidade de auto-reconhecimento diante do espelho”.

Aliás, os humanos também não vêem necessariamente sua face no espelho. Em um relatório intitulado “Mirror, Mirror on the Wall: Enhancement in Self-Recognition," disponível no site do The Personality and Social Psychology Bulletin, Nicholas Epley e Erin Whitchurch descreveram experimentos nos quais pessoas tiveram que identificar imagens de si próprias entre uma série de rostos aleatórios. Os participantes identificaram seus retratos individuais significativamente mais rápido quando seus rostos foram melhorados no computador para parecerem 20% mais atraentes. Quando foram apresentados a imagens de si próprios embelezados, alteradas para ficarem mais feios ou sem nenhum retoque, eles também tiveram maior tendência a afirmar que seu rosto original era a imagem retocada. Esse “processo de Photoshop” internalizado não é simplesmente o resultado de uma preferência generalizada pela beleza: quando tiveram que identificar imagens de estranhos em uma rodada subseqüente de testes, os participantes tiveram desempenho melhor ao apontar os rostos sem retoques.

Como podemos ser tão auto-iludidos quando a verdade está diante de nós? “Apesar de realmente vermos nossa própria imagem no espelho todos os dias, não temos toda vez a mesma aparência”, explicou Epley, professora de ciência comportamental da University of Chicago Graduate School of Business. Existe o eu-desarrumado-de-manhã, o eu-arrumado-para-o-trabalho, o eu-vestido-para-um-jantar-elegante. “Qual dessas imagens é você?”, perguntou. “Nossa pesquisa mostra que as pessoas, na média, resolvem essa ambigüidade a seu favor, formando uma representação de sua imagem mais atraente do que elas realmente são”.

Quando nos olhamos no espelho, nossa beleza relativa não é a única coisa que julgamos mal. Em uma série de estudos, Bertamini e seus colegas entrevistaram várias pessoas em relação ao que elas acham que os espelhos mostram a elas. Foram feitas perguntas como: “Imagine que você está diante de um espelho de banheiro; que tamanho você acha que seu rosto ocupa na superfície do espelho? E o que aconteceria ao tamanho da imagem se você desse passos para trás, afastando-se do espelho?”

As pessoas geralmente dão as mesmas respostas. Para a primeira pergunta, eles dizem: “Bem, o contorno do meu rosto no espelho teria praticamente o mesmo tamanho do meu rosto. Para a segunda pergunta, é óbvio: se eu me afasto do espelho, o tamanho da minha imagem diminui a cada passo para trás.”

Acontece que ambas as respostas estão erradas. Faça o contorno do seu rosto em um espelho e você descobrirá que ele tem exatamente a metade do tamanho do seu rosto verdadeiro. Dê quantos passos para trás você quiser, e o tamanho do contorno oval do seu rosto não vai mudar: ele permanece com a metade do tamanho do seu rosto (ou a metade de qualquer parte do corpo que você olhe), mesmo quando a cena de fundo refletida no espelho muda gradualmente. Outra coisa importante: essa regra da metade do tamanho não se aplica à imagem de outra pessoa se movendo no ambiente. Se você se ficar parado diante do espelho, e um amigo se aproxima ou se distancia, o tamanho da imagem da pessoa no espelho irá crescer ou diminuir, como manda nosso senso natural.

O que acontece com nosso eu refletido que obedece a regras tão absurdas? O importante é que não importa o quanto você esteja perto ou longe do espelho, o espelho sempre está na metade do caminho entre nosso ser físico e nosso ser projetado no mundo virtual dentro do espelho, então a imagem capturada no espelho corresponde à metade do nosso tamanho real.

Rebecca Lawson, que colabora com Bertamini na Universidade de Liverpool, sugere o seguinte. Imagine que você tem um irmão gêmeo idêntico, que vocês dois têm 1,80m e que vocês estão em pé em um ambiente com uma divisória móvel entre vocês. Que altura uma janela na divisória deveria ter para permitir que você veja o seu irmão por inteiro, em seus 1,80m?

A janela deve permitir que chegue até você luz de cima da cabeça do seu irmão gêmeo e debaixo do pé dele, disse Lawson. Essas duas fontes de luz começam a 1,80m de distância e convergem nos seus olhos. Se a divisória está perto do seu irmão gêmeo, os pontos de luz mais alto e mais baixo acabam de convergir, então a abertura da janela deve ter quase 1,80m de altura para permitir que você tenha uma visão de corpo inteiro do seu irmão gêmeo. Se a divisória está próxima a você, a luz praticamente acaba de convergir, então a janela pode ser bem pequena. Se a divisória está na metade do caminho entre você e seu irmão gêmeo, a janela teria que ter cerca de 0,90 cm. Oticamente, o espelho é similar, disse Lawson, “exceto que em vez de a luz vir do seu irmão diretamente através da janela, você vê a si próprio no espelho com uma luz da sua cabeça e do seu pé sendo refletida no espelho em direção aos seus olhos.”

O espelho é uma divisória cuja posição não podemos mudar. Quando olhamos para um deles, todos nós somos Narciso, eternamente presos à nossa cópia que está do outro lado.

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