Cientistas brasileiros mostram como a memória persiste

Em quatro apresentações durante o 2º Simpósio de Neurociência em Natal, que ocorreu de sexta a domingo, os pesquisadores Iván Izquierdo e Martim Cammarota, da PUC-RS, Marco Prado, da Universidade Federal de Minas Gerais, e Sidarta Ribeiro, do Instituto de Neurociência de Natal, mostraram os mecanismos envolvidos na persistência de uma lembrança (ou no esquecimento dela).

De brinde ainda esteve presente no evento o “pai de todos”, o britânico Timothy Bliss, que na década de 1970 descobriu um fenômeno conhecido como potenciação de longa duração (LTP), que fortalece as conexões entre os neurônios. Desde que o mecanismo foi observado, cientistas imaginavam se ele tinha relação com o aprendizado. Só no final do ano passado a hipótese foi comprovada. A equipe de Izquierdo concluiu que sim: a LTP é a base da formação da memória na região do cérebro denominada hipocampo.

Mas esse é só o começo da história. Doze horas depois de uma memória ser adquirida e consolidada, Izquierdo e seu companheiro Cammarota, além de pesquisadores argentinos, descobriram que outra proteína entra em ação, ainda no hipocampo, a chamada BDNF. “Esse sistema decide se a memória vai persistir por mais dois ou três dias, ou por mais uma semana, um mês ou a vida toda”, explica Izquierdo.

O mecanismo de persistência foi esclarecido com o silenciamento da proteína em camundongos. Após deixarem que os animais aprendessem uma determinada tarefa, os cientistas interromperam a ação da BDNF. Viram em seguida que os ratinhos haviam perdido aquela memória.

No entanto, ainda não é possível tirar conseqüências práticas da descoberta. Nem daí a indústria farmacêutica deve derivar uma droga do esquecimento – “já temos a cachaça para isso”, brinca Cammarota – nem tampouco uma forma de aumentar a capacidade de memória. Ou voluntariamente selecionar uma lembrança que queremos guardar para sempre.

“Ratinhos têm uma vida pobre, conseguimos controlar o que estamos ensinando e interferir nessa memória, mas em seres humanos me parece impossível modificar seletivamente uma lembrança com a ajuda de pílula”, explica o pesquisador. “A verdade é que ainda não sabemos por que algumas memórias se mantêm mais que as outras nem como influenciar isso”, complementa Izquierdo.

Sono e Vigília

Tudo isso foi observado no hipocampo, mas esse pequeno disquete do cérebro sozinho não é capaz de comportar as antigas memórias e as novas que estão se formando. Elas precisam migrar para o córtex, o verdadeiro HD. Essa noção já era conhecida na neurociência, mas agora está sendo esclarecido como a migração funciona.

Em outro estudo apresentado no simpósio, uma equipe conduzida por Sidarta Ribeiro, do Instituto de Neurociência em Natal, buscou explicar essa natureza dinâmica e a plasticidade neuronal que permite essa viagem das memórias. Ribeiro descobriu que eventos químicos que ocorrem durante o sono provavelmente são os responsáveis por essa transição.

“Quando a memória é adquirida ela fica reverberando pelos neurônios do hipocampo até ser consolidada (com a ação da LTP). Ocorre que depois de um tempo elas têm de sair dali”, explica o pesquisador.

Já se sabia que durante o sono ocorre uma espécie de reengenharia no cérebro e as sinapses ficam mais intensas, reforçando as memórias. Agora Ribeiro percebeu que no ciclo vigília-sono ocorre na verdade uma espécie de “maré de plasticidade”, que vai “empurrando” as memórias ao longo dos neurônios até que elas sejam armazenadas no córtex, de onde poderão vir à tona sempre que necessário. Mais uma vez, no entanto, a ciência ainda não consegue explicar o que faz com que algumas vão e outras desaparecem. “Importa muito a emoção do momento, o quanto ele foi impactante na vida da pessoa. A falta de atenção age no sentido contrário. E ambiente também interfere. Um susto pode quebrar a formação da memória, por exemplo.”

Esquecimento

O último trabalho apresentado no simpósio ajuda a explicar o outro lado dessa história: o esquecimento causado por doenças neurodegenerativas, como Alzheimer. Trabalhando com camundongos, Marco Prado observou o papel do neurotransmissor acetilcolina. Ratinhos transgênicos que tinham uma deficiência na sua produção não lembravam de objetos nem de outros animais já conhecidos. Seu trabalho é o mais promissor no desenvolvimento de novas drogas.

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