Cérebro de homens e mulheres é diferente até no nível celular

Um quarteto de cientistas espanhóis fez a primeira análise comparativa do cérebro de homens e mulheres com a ajuda do microscópio e concluiu: há diferenças significativas, até em nível celular. 

O estudo está na edição desta semana da "PNAS", a revista científica da Academia Nacional de Ciências dos EUA, e mostra um novo caminho para estudar as diferenças de funcionamento entre o cérebro masculino e o feminino.

Há tempos está claro para os cientistas que homens e mulheres têm níveis diferentes de sucesso com relação a certas habilidades. Homens, por exemplo, parecem ser melhores em processamento de informações espaciais, ou seja, ligadas à geometria dos objetos. Já as mulheres ganham de goleada quando o assunto é habilidade de verbalização e socialização.

Como todas essas coisas são feitas pelo cérebro, os neurocientistas sempre esperaram encontrar diferenças entre o órgão em sua versão masculina e em sua versão feminina.

Com efeito, eles já haviam encontrado algumas diferenças, como o tamanho de certas estruturas, visíveis com técnicas de tomografia. Mas observar o cérebro em nível celular nunca havia sido feito, pois obter amostras para colocar sob um microscópio é dificílimo — são tecidos que se degradam rapidamente após a morte, inviabilizando seu estudo.

Para conseguir os resultados inéditos, a equipe de Lidia Alonso-Naclares, do Instituto Cajal, em Madri, contou com uma ajuda de pacientes epilépticos, que iam passar de todo modo por uma biópsia cerebral (extração de amostra para examinação clínica).

Quatro homens e quatro mulheres participaram do estudo, que envolveu a análise de tecido do neocórtex temporal — uma região localizada nas camadas superiores do cérebro, abaixo das laterais do crânio.

A constatação foi a de que os homens têm, em geral, mais sinapses — as conexões que existem entre as células cerebrais — do que as mulheres nessa região cerebral. 

Dúvidas e novas questões

 

Os pesquisadores admitem que os resultados podem não ser os mesmos em cérebros de não-epilépticos, mas acreditam não haver razão para isso.

Eles também não conseguem dizer, no momento, qual é o impacto da diferença no número de sinapses para o funcionamento daquela região do cérebro. "A porção anterior do neocórtex temporal está envolvida tanto em processos emocionais como em sociais, inclusive na teoria da mente, entre outras habilidades", disse Alonso-Naclares ao G1. "Entretanto, não sabemos qual é o significado funcional de uma menor densidade de sinapses nessa região particular do cérebro das mulheres."

Ou seja, já ficou claro que há diferença na quantidade de sinapses entre homens e mulheres, mas ninguém sabe para que serviria ter mais ou menos sinapses naquela região cerebral.

E os cientistas quase imploram para que ninguém extrapole as conclusões tiradas da análise do neocórtex temporal para todo o cérebro. "Nós aconselhamos o leitor a exercer cautela ao extrapolar os presentes dados para o cérebro inteiro", escreveram os cientistas. "Mais estudos serão necessários para examinar se a densidade sináptica é similar ou diferente em outras áreas corticais."

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