Bloqueio de proteína no cérebro apaga memórias antigas

Memórias de longo prazo não se fixam permanentemente no cérebro, mas requerem manutenção constante – e uma breve interrupção no mecanismo químico que as sustenta pode apagá-las. 

A conclusão é de um estudo realizado em ratos por pesquisadores dos EUA e Israel, que obtiveram sucesso em eliminar memórias adquiridas até 25 dias antes pelos roedores, com a injeção de uma droga, o peptídeo zeta-inibidor (ZIP) na parte do cérebro dos animais responsável pelo registro.

O ZIP interrompe a função de uma proteína, a PKMZeta, que atua fortalecendo as sinapses, ou conexões entre células cerebrais, os neurônios. Essas células se comunicam por meio de substâncias chamadas neurotransmissores, que são liberadas em um neurônio e captadas no outro.

 

"Memórias são guardadas com o fortalecimento persistente de sinapses", explica um dos autores do trabalho, Todd Sacktor, do SUNY Downstate Medical Center, dos EUA. "Quando a PKMZeta está em uma sinapse, ela dobra o número de receptores de neurotransmissor. Isso torna a resposta a qualquer neurotransmissor liberado duas vezes mais forte, e a atividade contínua da PKMZeta é necessária para sustentar essa duplicação". 

No experimento, os cientistas treinaram ratos para desenvolver aversão a um tipo de alimento. Depois, alguns dos animais treinados receberam, na região do cérebro responsável por armazenar a memória gustativa, uma aplicação do ZIP. Os outros tiveram injeções de uma substância inócua.

 

Os ratos que receberam o ZIP esqueceram que o alimento os deixava doentes, e voltaram a consumi-lo, enquanto os que receberam a injeção inócua mantiveram a aversão adquirida.

O ZIP foi capaz de apagar a memória dos ratos até 25 dias após o treinamento de aversão, a despeito do fato de que a consolidação de memória, na parte do cérebro afetada no experimento, "é considerada completa após horas", segundo o artigo que descreve o trabalho, publicado na edição desta semana da revista Science.

Os ratos tratados com a droga não perderam a capacidade de adquirir novas memórias.

Sacktor acredita que o ZIP poderia ter o mesmo efeito em outras regiões do cérebro – por exemplo, na parte que registra memórias visuais – e, também, em seres humanos. "PKMZeta está presente em outras partes do cérebro, e sinapses funcionam de modo semelhante nas diferentes partes", diz ele. Sobre o efeito em humanos, o pesquisador pondera que "pessoas produzem PKMZeta, também".

O estudo abre caminho para pesquisas de drogas para fortalecer sinapses e, assim, preservar memórias, mas também para a possibilidade de se apagar lembranças deliberadamente.

"Por enquanto, a evidência é de que todas as memórias guardadas na região do cérebro atingida pela injeção seriam apagadas", diz Sacktor, respondendo à idéia de uso do ZIP para eliminar lembranças específicas no cérebro humano, como memórias de eventos traumáticos.

"Mas eliminar memórias específicas pode ser possível", explica, talvez atacando a lembrança no momento em que é chamada de volta à consciência.

"Isso ainda não é bem compreendido, mas quando são evocadas, as memórias tornam-se especialmente suscetíveis". Talvez, especula, seja possível bloquear a  produção de PKMZeta nesse momento exato.

Deixe um comentário