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Anticonvulsivo pode evitar evolução de Alzheimer, diz neurocientista

Após 30 anos estudando o cérebro idoso, Michela Gallagher descobriu que a perda de memória é causada por uma hiperatividade no córtex cerebral. Foto: Johns Hopkins University/ Divulgação

Após 30 anos estudando o cérebro idoso, Michela Gallagher descobriu que a perda de memória é causada por uma hiperatividade no córtex cerebral
Foto: Johns Hopkins University/ Divulgação

Carla Ruas
Direto de Washington

A neurocientista norte-americana Michela Gallagher, pesquisadora da Universidade Johns Hopkins, entusiasmou a comunidade científica neste ano ao afirmar que um remédio que já existe pode evitar o desenvolvimento do Alzheimer. Após 30 anos estudando o cérebro idoso, ela descobriu que a perda de memória é causada por uma hiperatividade no córtex cerebral. E que essa atividade pode ser controlada com pequenas doses do medicamento anticonvulsivo Levetiracetam, usado em pacientes com epilepsia.

A descoberta foi divulgada em maio em artigo publicado na revista científica Cell Press. Em entrevista exclusiva ao Terra, Gallagher explica que, se aprovado em testes clínicos, o uso do remédio para este fim será liberado em menos de cinco anos. Seria uma grande avanço contra a doença, que atinge uma população crescente de idosos, causando perda gradual de memória e de todas as funções mentais.

Confira a seguir a entrevista completa:

Terra – Você estuda o envelhecimento do cérebro há 30 anos. Quais foram as principais descobertas ao longo da pesquisa?
Michela Gallagher –
Quando comecei a estudar o envelhecimento do cérebro se pensava que à medida que envelhecemos há inevitável perda de neurônios. E os livros de medicina até afirmavam que ocorria 10% de perda por década, ou algo assim. Então, o primeiro avanço realmente significativo foi descobrir que não ocorre essa perda no córtex mesmo se você tiver 80, 90 ou até 100 anos. Isso nos mostrou que o motivo para a perda de memória não era degeneração do cérebro, mas como as células passavam a funcionar. Para investigar isso usamos novas ferramentas de captura de imagem incrivelmente sofisticadas que nos permitem olhar para o cérebro das pessoas enquanto estão fazendo testes de memória. O que vimos foi que um grupo específico de células ficava hiperativo em quem tinha perda de memória. Quem teria imaginado isso há 30 anos? Então descobrimos que a hiperatividade nessa parte do cérebro é que estava causando os problemas.

Terra – Um artigo seu (Reduction of Hippocampal Hyperactivity Improves Cognition in Amnestic Mild Cognitive Impairment) causou comoção na comunidade científica. Por quê?
Michela –
Ao realizar testes em ratos já tínhamos descoberto que havia uma forma para reduzir essa hiperatividade no cérebro e melhorar o desempenho da memória. Então nós descobrimos que havia um tipo de medicamento que poderia ser usado: um antiepiléptico que controla convulsões em seres humanos. Recentemente testamos esse remédio num estudo clínico em humanos e usamos ferramentas magnéticas funcionais para olhar a atividade no cérebro enquanto os pacientes realizavam testes de memória. Verificou-se que em pacientes que têm Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) – um grupo que está em transição para desenvolver Alzheimer – a droga reduziu a atividade em excesso e melhorou sua memória.

Terra – Por que você decidiu testar pacientes antes deles desenvolveram Alzheimer?
Michela –
Nessa condição de CCL, a doença ainda não tomou conta do cérebro e a hiperatividade é ainda mais clara. Nas pessoas que já atingiram um diagnóstico de Alzheimer, a hiperatividade na verdade vai embora e o sistema de memória é incrivelmente silencioso se comparado ao normal. Isso ocorre porque quando a pessoa já foi diagnosticada há uma neurodegeneração no cérebro e perda de tecido cerebral. Portanto, este medicamento provavelmente não é um candidato para a tratamento de Alzheimer, mas possivelmente para prevenir o desenvolvimento da doença.

Terra – Quando este remédio estará disponível para o público?
Michela –
Ainda há muita coisa para ser feita antes que isso ocorra. Sabemos que podemos reduzir a hiperatividade durante o que se pensa ser a progressão para a doença de Alzheimer. Mas ainda estamos testando se o remédio vai retardar o desenvolvimento da doença ao ponto que os pacientes não desenvolverão nenhum sintoma. É isso estamos fazendo agora. Faremos mais testes clínicos em humanos, o que deve levar alguns anos. Já sabemos que essa droga é extremamente segura, mas temos que provar o quanto ela é efetiva para prevenir Alzheimer. Mas este é um caminho muito mais rápido do que já fizemos até agora, é algo para ser otimista, temos uma projeção de quatro anos, se tudo correr bem.

Terra – Você teve um caso de Alzheimer na família. Como isso a motivou para procurar uma cura para a doença?
Michela –
No inicio, estava interessada na compreensão básica do cérebro e da memória, não estava buscando uma solução para Alzheimer. Mas com o envelhecimento da população mundial, em pouco tempo essa doença se tornou uma grande necessidade não atendida na sociedade. Alzheimer tem uma incidência muito elevada e causa profunda perda de memória, progredindo para a perda de todas as funções mentais. O que você acabou de mencionar é verdade: foi uma grande ironia que depois de estudar memória por mais de 20 anos minha mãe tivesse Alzheimer. Testemunhei o progresso da doença de perto. Foi uma experiência muito marcante. Naquele momento, eu estava justamente num ponto da minha pesquisa focada no sistema de memória durante o envelhecimento. Então me dei conta que tinha em minhas mãos a possibilidade de entender os motivos que levam à doença e como evitá-la.

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