NeuroCurso - Cursos online de neurociências e neurologia

Voltar para NeuroNews

05/12/2015 19:29

Virus Zika (ZIKAV)

É uma doença viral aguda, transmitida principalmente por mosquitos, tais como Aedes aegypti, caracterizada por exantema maculopapular pruriginoso, febre intermitente, hiperemia conjuntival não purulenta e sem prurido, artralgia, mialgia e dor de cabeça. Apresenta evolução benigna e os sintomas geralmente desaparecem espontaneamente após 3-7 dias.

O Zika virus (ZIKAV) é um RNA vírus, do gênero Flavivírus, família Flaviviridae. Até o momento, são conhecidas e descritas duas linhagens do vírus: uma Africana e outra Asiática.

O principal modo de transmissão descrito do vírus é por vetores. No entanto, está descrito na literatura científica, a ocorrência de transmissão ocupacional em laboratório de pesquisa, perinatal e sexual, além da possibilidade de transmissão transfusional.

A febre por vírus Zika é descrita como uma doença febril aguda, autolimitada, com duração de 3-7 dias, geralmente sem complicações graves e não há registro de mortes. A taxa de hospitalização é potencialmente baixa.

Segundo a literatura, mais de 80% das pessoas infectadas não desenvolvem manifestações clínicas, porém quando presentes a doença se caracteriza pelo surgimento do exantema maculopapular pruriginoso, febre intermitente, hiperemia conjuntival não purulenta e sem prurido, artralgia, mialgia e dor de cabeça e menos frequentemente, edema, dor de garganta, tosse, vômitos e haematospermia.. No entanto, a artralgia pode persistir por aproximadamente um mês.

Recentemente, foi observada uma possível correlação entre a infecção ZIKAV e a ocorrência de Microcefalia, essa correlação é inédita e se fez no Brasil através do Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz. Além da microcefalia existe uma correlação com a síndrome de Guillain-Barré (SGB) em locais com circulação simultânea do vírus da dengue.

 

Epidemiologia

 

Em 29 de abril de 2015, pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) reportaram a identificação de Zika Vírus (ZIKAV) por meio de técnica de RT-PCR em oito de 25 amostras testadas, provenientes da região de Camaçari/BA. Em 09 de maio de 2015, a Fiocruz/PR identificou ZIKAV, pela mesma técnica em oito de 21 amostras, provenientes de Natal/RN. No dia 20 de maio de 2015, o estado de São Paulo notificou a detecção de um caso confirmado na região de Sumaré/SP realizado pelo Instituto Adolfo Lutz/SP. Os casos foram ratificados pelo laboratório de referência nacional, Instituto Evandro Chagas/SVS/MS. A partir dessa data, outros estados vêm identificando a circulação de casos suspeitos de febre do Zika Vírus.

 

 

Síndromes Neurológicas Relacionados com o Virus Zika

Estão ocorrendo casos com manifestações neurológicas e histórico de doença exantemática prévia. Esses achados estão sendo reportados em regiões com evidência de cocirculação dos vírus zika, dengue e/ou chikungunya, em especial nos Estados do nordeste.

A ocorrência de síndromes neurológicas após processos infeciosos pelo vírus da dengue e chikungunya está descrita desde a década de 1960, e com o Zika vírus desde 2007, especialmente após os surtos ocorridos na região da Micronésia e Polinésia Francesa.

Dentre as manifestações neurológicas, é sabido que a síndrome de Guillain-Barré (SGB) é uma das mais frequentes.

Em especial no Brasil, casos recentes de microcefalia tem sido relacionados com o Vírus Zika.

Microcefalia

A microcefalia é uma alteração do crescimento craniano e cerebral principalmente do feto em desenvolvimento, que é o período em que ocorre maior crescimento do sistema nervoso e é o período de maior risco. A microcefalia, apesar disso, também pode ocorrer após o nascimento.

A microcefalia não se aplica a face e sim a calota craniana que, devido ao baixo crescimento cerebral não se expandiu até os valores considerados normais.

A microcefalia também pode ser provocada por fechamento precoce das suturas cranianas e das fontanelas por uma série de causas. Esse fechamento precoce impede o cranio de crescer e impede o crescimento normal do cérebro.

A microcefalia pode ser causada por uma série de substâncias e infecções. Agentes químicos, abuso de álcool, desnutrição severa, distúrbios metabólicos não tratados como a fenilcetonúria, anormalidades cromossômicas, como é o caso da síndrome de Down, falta de oxigênio para o cérebro em formação, infecções do feto durante a gestação, dentre outros.

Especialmente em relação às infecções, podemos citar a rubéola, a toxoplasmose, a citomegalovirose e, mais recentemente, o Zika vírus. Cada agente causador provoca um quadro típico, como alteração na visão, na audição ou em outros órgãos. Aproximadamente 90% dos casos de microcefalia irão apresentar algum tipo de distúrbio cognitivo ou motor. Algumas crianças podem desenvolver crises convulsivas de difícil controle, hiperatividade, mas outras, no entanto, levam uma vida normal, até a idade adulta.

A relação do Vírus Zika não tinha sido relatada até então na literatura mundial, quando o Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz), confirmou que o Zika vírus é capaz de atravessar a barreira placentária e chegar até o líquido amniótico, fluido que envolve o feto durante a gravidez. O Vírus sobrevive nesse líquido amniótico ainda que já tenha sido eliminado em outras partes do organismo.

Esse achado embasou as hipóteses para o surto de microcefalia que o Brasil está vivendo,  especialmente na região nordeste e alarmando a populacão, principalmente as mulheres em idade fértil. Os estudos ainda estão em andamento para se estabelecer com detalhes os mecanismos da infecção e possíveis tratamentos ou medidas de prevenção.

 

O diagnóstico de microcefalia é feito através da medida do cranio através de uma fita métrica durante o nascimento e ao longo do acompanhamento do recém-nascido na puericultura, se medindo o perímetro cefálico. Durante a gravidez esse diagnóstico é feito ao longo do acompanhamento pré-natal principalmente por meio do Ultrassom Morfológico Fetal.

A medida do perímetro cefálico (PC) é muito importante no primeiro ano de vida, pois é um parâmetro antropométrico altamente correlacionado com o tamanho cerebral. Por conta disso, deve ser rotineiramente usado para seguimento individual de crianças de zero a 24 meses, período de maior crescimento pós-natal. Em linhas gerais, quando o pediatra detecta um PC inferior a 33 cm em um bebê nascido a termo, tem-se o diagnóstico de microcefalia.

A fase de maior crescimento do PC corresponde aos primeiros meses intra-uterinos. No entanto, após o nascimento, essa medida sofre alterações conforme as informações abaixo. O pediatra deve avaliar esse processo de crescimento craniano regularmente:

Dos 0-3 meses, o PC cresce aproximadamente 2 cm/mês; dos 3-6 meses, 1 cm/mês; dos 6-12 meses, 0,5 cm/mês; 1-3 anos, 0,25 cm/mês. Por fim, dos 4 até por volta dos 6 anos de idade, o PC cresce em média 1 cm ao ano.

Síndrome de Guillain-Barré

A SGB é uma manifestação autoimune tardia que pode ser desencadeada por processos infecciosos ou não infecciosos. Apesar da maior parte das manifestações (2/3 dos pacientes) estar relacionada a processos infecciosos, isso não significa que seja exclusivamente por infecção relacionada à dengue, zika ou chikungunya.

Exames Laboratoriais

Informações sobre alterações típicas laboratoriais associadas com a infecção por Zika Vírus são escassas, mas incluem, durante o curso da doença, leucopenia, trombocitopenia (Baixa de Plaquetas) e ligeira elevação da desidrogenase láctica sérica, gama glutamil transferase e de marcadores de atividade inflamatória (proteína C reativa, fibrinogênio e ferritina). Em recente relato clínico de dois casos de Zika Vírus importados da Polinésia Francesa para o Japão, houve a verificação de leucopenia e trombocitopenia moderada para ambos os casos; os mesmos achados laboratoriais foram observados recentemente em caso Zika confirmado em um viajante canadense que retornou da Tailândia.

O diagnóstico laboratorial específico de ZIKAV baseia-se principalmente na detecção de RNA viral a partir de espécimes clínicos. O período virêmico não foi estabelecido, mas se acredita que seja curto, o que permitiria, em tese, a detecção direta do vírus até 4-7 dias após o início dos sintomas, sendo, entretanto, ideal que o material a ser examinado seja até o 4º dia (figura 1). Os ácidos nucleicos do vírus foram detectados em humanos entre 1 e 11 dias após início dos sintomas e o vírus foi isolado em primata não-humano até 9 dias após inoculação experimental.

No momento, não há sorologia disponível comercialmente para detecção de anticorpos para Zika Vírus no Brasil. Atualmente só há disponibilidade para realização de isolamento viral e RT-PCR, restrito aos nossos Laboratórios de Referência.

Esquema proposto para diagnóstico laboratorial do ZIKAV por técnicas de isolamento, RT-PCR e sorologia (IgM/IgG).

 

Qual a distribuição dessa doença?

O vírus Zika foi isolado pela primeira vez em primatas não humanos em Uganda, na floresta Zika em 1947, por esse motivo esta denominação. Entre 1951 a 2013, evidências sorológicas em humanos foram notificadas em países da África (Uganda, Tanzânia, Egito, República da África Central, Serra Leoa e Gabão), Ásia (Índia, Malásia, Filipinas, Tailândia, Vietnã e Indonésia) e Oceania (Micronésia e Polinésia Francesa).

Nas Américas, o Zika Vírus somente foi identificado na Ilha de Páscoa, território do Chile no oceano Pacífico, 3.500 km do continente no início de 2014.

O Zika Vírus é considerado endêmico no Leste e Oeste do continente Africano. Evidências sorológicas em humanos sugerem que a partir do ano de 1966 o vírus tenha se disseminado para o continente asiático.

                    Atualmente há registro de circulação esporádica na África (Nigéria, Tanzânia, Egito, África Central, Serra Leoa, Gabão, Senegal, Costa do Marfim, Camarões, Etiópia, Quénia, Somália e Burkina Faso) e Ásia (Malásia, Índia, Paquistão, Filipinas, Tailândia, Vietnã, Camboja, Índia, Indonésia) e Oceania (Micronésia, Polinésia Francesa, Nova Caledônia/França e Ilhas Cook).

                    Casos importados de Zika virus foram descritos no Canadá, Alemanha, Itália, Japão, Estados Unidos e Austrália (12) Adicionar Ilha de Páscoa.

 

Quais são os principais sinais e sintomas?

Segundo a literatura, mais de 80% das pessoas infectadas não desenvolvem manifestações clínicas, porém quando presentes são caracterizadas por exantema maculopapular pruriginoso, febre intermitente, hiperemia conjuntival não purulenta e sem prurido, artralgia, mialgia e dor de cabeça e menos frequentemente, edema, dor de garganta, tosse, vômitos e haematospermia. Apresenta evolução benigna e os sintomas geralmente desaparecem espontaneamente após 3 a 7 dias. No entanto, a artralgia pode persistir por aproximadamente um mês.

Recentemente, foi observada uma possível correlação entre a infecção ZIKAV e a ocorrência de síndrome de Guillain-Barré (SGB) em locais com circulação simultânea do vírus da dengue, porém não confirmada a correlação.        

Qual o prognóstico?

Em suma, vem sendo considerada uma doença benigna, na qual nenhuma morte foi relatada e autolimitada, com os sinais e sintomas durando, em geral, de 3 a 7 dias. Não vê sendo descritas formas crônicas da doença.

 

Há tratamento ou vacina contra o Zika vírus?

Não existe O tratamento específico. O tratamento dos casos sintomáticos recomendado é baseado no uso de acetaminofeno (paracetamol) ou dipirona para o controle da febre e manejo da dor. No caso de erupções pruriginosas, os anti-histamínicos podem ser considerados. No entanto, é desaconselhável o uso ou indicação de ácido acetilsalicílico e outros drogas anti-inflamatórias em função do devido ao risco aumentado de complicações hemorrágicas descritas nas infecções por síndrome hemorrágica como ocorre com outros flavivírus.

Não há vacina contra o Zika vírus.

A SVS/MS informa que mesmo após a identificação do Zika Vírus no país, há regiões com ocorrência de casos de dengue e chikungunya, que, por apresentarem quadro clínico semelhante, não permitem afirmar que os casos de síndrome exantemática identificados sejam relacionados exclusivamente a um único agente etiológico.

Assim, independentemente da confirmação das amostras para ZIKAV, é importante que os profissionais de saúde se mantenham atentos frente aos casos suspeitos de dengue nas unidades de saúde e adotem as recomendações para manejo clínico conforme o preconizado no protocolo vigente, na medida em que esse agravo apresenta elevado potencial de complicações e demanda medidas clínicas específicas, incluindo-se a classificação de risco, hidratação e monitoramento.

 

Como evitar e quais as medidas de prevenção e controle?

As medidas de prevenção e controle são semelhantes às da dengue e chikungunya. Não existem medidas de controle específicas direcionadas ao homem, uma vez que não se dispõe de nenhuma vacina ou drogas antivirais.

Prevenção domiciliar

Deve-se reduzir a densidade vetorial, por meio da eliminação da possibilidade de contato entre mosquitos e água armazenada em qualquer tipo de depósito, impedindo o acesso das fêmeas grávidas por intermédio do uso de telas/capas ou mantendo-se os reservatórios ou qualquer local que possa acumular água, totalmente cobertos. Em caso de alerta ou de elevado risco de transmissão, a proteção individual por meio do uso de repelentes deve ser implementada pelos habitantes.

Individualmente, pode-se utilizar roupas que minimizem a exposição da pele durante o dia quando os mosquitos são mais ativos podem proporcionar alguma proteção contra as picadas dos mosquitos e podem ser adotadas principalmente durante surtos, além do uso repelentes na pele exposta ou nas roupas.

Prevenção na comunidade

Na comunidade deve-se basear nos métodos realizados para o controle da dengue, utilizando-se estratégias eficazes para reduzir a densidade de mosquitos vetores Aedes. Um programa de controle da dengue em pleno funcionamento irá reduzir a probabilidade de um ser humano virêmico servir como fonte de alimentação sanguínea, e de infecção para Aedes aegypti e Aedes albopictus, levando à transmissão secundária e a um possível estabelecimento do vírus nas Américas.

Os programas de controle da dengue para o Aedes. aegypti, tradicionalmente, têm sido voltados para o controle de mosquitos imaturos, muitas vezes por meio de participação da comunidade em manejo ambiental e redução de criadouros.

Procedimentos de controle de vetores Aedes aegypti

As orientações da OMS e do Ministério da Saúde do Brasil para a dengue fornecem informações sobre os principais métodos de controle de vetores e devem ser consultadas para estabelecer ou melhorar programas existentes. O programa deve ser gerenciado por profissionais experientes, como biólogos com conhecimento em controle vetorial, para garantir que ele use recomendações de pesticidas atuais e eficazes, incorpore novos e adequados métodos de controle de vetores segundo a situação epidemiológica e inclua testes de resistência dos mosquitos aos inseticidas.

Gravidez

O Ministério da Saúde recomenda através de pareceres técnicos de especialistas que a mulher adia por alguns meses a gravidez. Se a mulher já estiver grávida, recomenda-se que se evite viagens para lugares endêmicos, onde a doença está ocorrendo com número maior de casos, e realize o acompanhamento clínico pré-natal conforme preconizado pelas autoridades em saúde.

 

 

Carrinho


Vazio.

Cursos disponíveis

UFMG

Os cursos do NeuroCurso são certificados pelo Centro de Extensão do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.

Saiba Mais

CNA

Os cursos com selo CNA dão direito a pontuação de acreditação da CNA para médicos especialistas.

Saiba Mais

NEUROCURSO UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais
Av. Presidente Antônio Carlos, 6627 - Centro de Extensão - CENEX
Instituto de Ciências Biológicas - ICB
Campus Pampulha - Belo Horizonte/MG CEP: 31270-010
Atendimento: Chat online ou formulário de contato